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	<title>Longas Histórias de Natal</title>
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	<description>... para enfrentar as noites frias  ...</description>
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		<title>O Cesto de Natal da tia Cyrilla &#8211; L. M. Montgomery</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Nov 2009 10:28:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pnatal</dc:creator>
				<category><![CDATA[Natal]]></category>

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		<description><![CDATA[O Cesto de Natal da tia Cyrilla Mais uma vez, o verdadeiro espírito de Natal é representado neste conto do autor canadiano de Ana dos Bicos Verdes (Anne of Green Gables), como qualquer coisa de simples e familiar. Publicado pela primeira vez em 1903, na revista Young People, este conto é sobre Lucy Rose, a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=prepararonatal.wordpress.com&amp;blog=1641256&amp;post=61&amp;subd=prepararonatal&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align:center;">O Cesto de Natal da tia Cyrilla</h3>
<p style="text-align:justify;"><em>Mais uma vez, o verdadeiro espírito de Natal é representado neste conto do autor canadiano de Ana dos Bicos Verdes (Anne of Green Gables), como qualquer coisa de simples e familiar. Publicado pela primeira vez em 1903, na revista Young People, este conto é sobre Lucy Rose, a menina arrogante do campo que queria ser elegante e sofisticada. Fica desconcertada com o «provincianismo» da tia Cyrilla e tem vergonha do cesto cheio de iguarias caseiras, que a tia carrega quando vai visitar os familiares. Quando o comboio ficou bloqueado na neve, até mesmo, nos feridos e nos desesperados que havia no meio dos passageiros, despontou uma nova esperança e alento, provocados pela amabilidade de um estranho.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Quando Lucy Rose encontrou a tia Cyrilla a descer as escadas, algo ofegante e ruborizada pela ida ao sótão, com um cesto enorme, com tampa, enfiado no braço roliço, soltou um pequeno suspiro de desespero. Há alguns anos que Lucy Rose fazia o melhor que podia – de facto, desde que tinha prendido o cabelo e aumentado ao comprimento das saias – para que a tia Cyrilla perdesse o hábito que tinha de levar aquele cesto com ela, sempre que ia a Pembroke; mas a tia Cyrilla insistia em levá-lo e só se ria do que ela apelidava de «ideias afectadas» de Lucy Rose. Lucy Rose achava horrível e extremamente provinciano a tia carregar sempre o cesto consigo, cheio de coisas boas do campo, de cada vez que ia visitar Edward e Geraldine. Geraldine era tão elegante que talvez achasse aquilo estranho; e depois, a tia Cyrilla levava-o sempre no braço, e dava biscoitos, maçãs e chupa-chupas de melaço a todas as crianças que encontrava e, de vez em quando, também a pessoas de idade. Quando Lucy Rose ia à cidade com a tia Cyrilla, sentia-se desgostosa com isto – mas Lucy era ainda muito nova e tinha muita coisa a aprender neste mundo.<span id="more-61"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Aquela preocupação incómoda sobre o que Geraldine pensaria, encorajou-a a protestar naquele instante.</p>
<p style="text-align:justify;">– Ora, tia Cyrilla – apelou – de certeza que, desta vez, não vai levar aquele cesto velho e esquisito consigo para Pembroke, é Dia de Natal e tudo!</p>
<p style="text-align:justify;">– Claro, claro que vou – respondeu a tia Cyrilla, enquanto o punha em cima da mesa e começava a limpá-lo. – Nunca fui visitar o Edward e a Geraldine, desde que estão casados, sem levar o cesto das coisas boas comigo e não vai ser agora que vou deixar de o fazer. Se é Natal, mais uma razão. O Edward fica sempre muito contente por ter algumas das coisas antigas da casa da quinta. Diz que são muito superiores às cozinhadas na cidade, e são mesmo.</p>
<p style="text-align:justify;">– Mas é tão provinciano – lamentou-se Lucy Rose.</p>
<p style="text-align:justify;">– Bem, eu sou da província – disse a tia Cyrilla, firmemente – e tu também. E depois, não vejo motivo para sentirmos vergonha disso. Tens um amor-próprio excessivo, Lucy Rose. Com o tempo há-de passar-te, mas neste momento está a causar-te muitos problemas.</p>
<p style="text-align:justify;">– O cesto é um problema – disse Lucy Rose, zangada. – A tia está sempre a esquecer-se dele, ou com medo de se esquecer. E parece tão estranho andar pelas ruas com esse cesto grande e bojudo no braço.</p>
<p style="text-align:justify;">– Não estou nada preocupada com as aparências – respondeu a tia Cyrilla, calmamente. – Quanto a ser um problema, ora, talvez seja, mas é um hábito meu e outras pessoas apreciam. O Edward e a Geraldine não precisam disto – eu sei – mas pode haver quem precise. E se caminhares ao lado de uma mulher velha e provinciana, com um cesto, fere os teus sentimentos, ora, podes ficar para trás como dantes.</p>
<p style="text-align:justify;">A tia Cyrilla meneou a cabeça e sorriu bem-humorada, e Lucy Rose, embora mantivesse a sua opinião pessoal, também teve de sorrir.</p>
<p style="text-align:justify;">– Agora, deixa-me ver – disse a tia Cyrilla, reflectindo e batendo com a ponta do dedo indicador em cima da mesa da cozinha branca como a neve – o que levo? Para já, aquele bolo grande de frutas – o Edward gosta do meu bolo de frutas; e aquela língua cozida fria. Aquelas três tortas de carne picada, também, se não estragam-se antes de voltarmos, ou, então, o teu tio fica doente ao comê-las – torta de carne picada é o seu pecado mortal. E aquele frasco de barro cheio de natas – a Geraldine pode ter muita classe, mas ainda tenho de a ver desprezar umas natas do campo, Lucy Rose. E outro frasco do meu vinagre de framboesa. Aquele prato de biscoitos de geleia e dónutes vão agradar às crianças e encher os pequenos espaços vazios, e podes trazer-me aquela caixa de caramelos que está na despensa e aquele saco de barras de bombons às riscas que o teu tio me trouxe, ontem à noite, ali da esquina. E maçãs, claro – três ou quatro dúzias daquelas boas – e um frasquinho da minha compota de ameixa rainha-cláudia – o Edward vai gostar. E algumas sanduíches e bolo inglês para um lanche para nós. Agora, acho que de mantimentos já chega. Os presentes para as crianças podem ir por cima. Tenho uma boneca para a Daisy, um barquinho que o teu tio fez para o Ray, um lenço de mão em renda de bilros para cada um dos gémeos e a touca de crochet para o bebé. Agora está tudo?</p>
<p style="text-align:justify;">– Há uma galinha assada fria na despensa – disse Lucy Rose com mal dade – e o porco, que o tio Leo matou, está dependurado no alpendre. Também quer metê-los aí dentro?</p>
<p style="text-align:justify;">A tia Cyrilla exibiu um sorriso amplo.</p>
<p style="text-align:justify;">– Bem, acho que deixamos o porco em paz; mas uma vez que me lembraste, a galinha também pode ir. Arranjo espaço.</p>
<p style="text-align:justify;">Apesar dos preconceitos, Lucy Rose ajudou a embalar e, mesmo não tendo sido supervisionada pelo olho da tia Cyrilla, fez tudo muito bem, com muita inteligência e economia de espaço. Mas depois de a tia Cyrilla ter colocado, como toque de acabamento, um ramo de perpétuas cor-de-rosa e brancas e fechado as tampas bojudas com mão firme, Lucy Rose ficou junto do cesto e murmurou vingativamente:</p>
<p style="text-align:justify;">– Um dia, vou queimar este cesto – quando tiver coragem suficiente. Então, será o fim e deixará de o levar consigo para todo o lado, como uma velha vendedora da praça.</p>
<p style="text-align:justify;">O tio Leopold entrou naquele preciso momento, meneando a cabeça com ar de dúvida. Não iria passar o Natal com Edward e Geraldine, e talvez a perspectiva de cozinhar e de comer o seu jantar de Natal sozinho o deixasse pessimista.</p>
<p style="text-align:justify;">– Desconfio, que vocês não vão conseguir chegar a Pembroke amanhã – disse com sabedoria. – Vem aí uma tempestade.</p>
<p style="text-align:justify;">A tia Cyrilla não se preocupou com isso. Acreditava que assuntos deste tipo estavam predeterminados, e dormiu tranquilamente. Mas Lucy Rose levantou-se três vezes durante a noite para ver se havia temporal e, quando adormeceu, teve pesadelos horríveis com lutas no meio de tempestades de neve ofuscante que arrastavam para longe o cesto da tia Cyrilla.</p>
<p style="text-align:justify;">De manhã cedo, não estava a nevar e o tio Leopold levou a tia Cyrilla, Lucy Rose e o cesto até à estação, que ficava a quatro quilómetros de distância. Quando chegaram lá, o ar estava carregado de flocos flutuantes. O chefe da estação vendeu os bilhetes com um ar mal-disposto.</p>
<p style="text-align:justify;">– Se vier mais neve, os comboios talvez atrapalhem o Natal – disse. – Tem nevado tanto que o tráfico já está a ficar bloqueado, e é difícil retirar a neve para restabelecer a circulação.</p>
<p style="text-align:justify;">A tia Cyrilla disse que, se estivesse previsto que o comboio chegasse a tempo do Natal a Pembroke, chegaria; abriu o cesto e deu ao chefe da estação e a três rapazinhos uma maçã a cada um.</p>
<p style="text-align:justify;">– Isto é só o começo – suspirou fundo Lucy Rose.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando o comboio delas chegou, a tia Cyrilla instalou-se num banco, colocou o cesto no outro e olhou sorridente à sua volta para os companheiros de viagem.</p>
<p style="text-align:justify;">Havia poucos – uma mulher delicada ao fundo da carruagem, com um bebé e mais quatro crianças, uma jovem no meio do corredor com um rosto pálido e bonito, um rapaz, três bancos à frente, vestido com um uniforme caqui, uma senhora muito elegante com um casaco de pele de foca, na frente dele, e um homem jovem, magro e de óculos, do lado oposto.</p>
<p style="text-align:justify;">– Um sacerdote – reflectiu a tia Cyrilla, começando a classificar – que cuida melhor da alma dos outros do que do seu próprio corpo; e aquela mulher de casaco de pele de foca está triste e zangada com alguma coisa – talvez se tenha levantado demasiado cedo para apanhar o comboio; e aquele jovem companheiro deve ser um dos que saíram há pouco tempo do hospital. Os filhos daquela mulher é como se não tivessem comido uma refeição decente desde que nasceram; e se aquela rapariga do outro lado tem mãe, gostaria de saber o que significa deixar a filha sair de casa, com este tempo, com uma roupa daquelas.</p>
<p style="text-align:justify;">Lucy Rose apenas se perguntava desconfortavelmente o que pensariam os outros do cesto da tia Cyrilla.</p>
<p style="text-align:justify;">Contavam chegar a Pembroke naquela noite, mas à medida que o dia passava, a tempestade cada vez se tornava mais violenta. O comboio parou duas vezes para que os ajudantes retirassem a neve. À terceira vez não conseguiu continuar. Estava escuro quando o condutor deu uma volta pelo comboio, respondendo bruscamente às perguntas dos passageiros ansiosos.</p>
<p style="text-align:justify;">– Uma boa vigia para o Natal – não, é impossível continuar ou voltar – o caminho está bloqueado durante milhas – o que é isso minha senhora? – não, não existe nenhuma estação perto – só existem milhas de bosque. Ficamos aqui esta noite. Estas últimas tempestades têm causado muitos prejuízos em tudo.</p>
<p style="text-align:justify;">– Oh, meu Deus – suspirou Lucy Rose.</p>
<p style="text-align:justify;">A tia Cyrilla olhou para o cesto com satisfação.</p>
<p style="text-align:justify;">– De qualquer forma, não morreremos de fome – disse.</p>
<p style="text-align:justify;">A rapariga bonita e pálida parecia indiferente. A senhora com o casaco de pele de foca parecia mais zangada do que nunca. O rapaz de caqui disse «só a minha sorte» e duas das crianças começaram a chorar. A tia Cyrilla tirou do cesto algumas maçãs e barras de caramelos às riscas, e deu-lhos. Pôs o mais velho no seu colo amplo, e rapidamente os tinha todos à sua volta, rindo satisfeitos.</p>
<p style="text-align:justify;">Os passageiros restantes afastaram-se para um canto e começaram a falar casualmente. O rapaz de caqui disse que, afinal de contas, era pouca sorte não chegar a casa para o Natal.</p>
<p style="text-align:justify;">– Fui, há três meses, afastado do serviço militar na África do Sul por invalidez, e desde então, tenho estado no hospital. Cheguei a Halifax há três dias e telegrafei aos meus velhos amigos a dizer que jantaria com eles no dia de Natal e que tivessem um perú de tamanho extra, porque não comi nenhum o ano passado. Vão ficar extremamente desapontados.</p>
<p style="text-align:justify;">O rapaz também parecia desapontado. Uma das mangas do uniforme caqui estava vazia. A tia Cyrilla passou-lhe uma maçã.</p>
<p style="text-align:justify;">– Nós íamos todos passar o Natal a casa do avô – disse, com tristeza, o filho mais velho da jovem mãe. – Nunca lá estivemos antes. É terrível!</p>
<p style="text-align:justify;">Parecia que queria chorar, mas pensou melhor no assunto e encheu a boca com mais uma dentada de rebuçado.</p>
<p style="text-align:justify;">– Será que vai haver Pai Natal no comboio? – perguntou a irmã pequena a chorar. – O Jack diz que não.</p>
<p style="text-align:justify;">– Tenho a certeza de que o Pai Natal vai descobrir-te – disse a tia Cyrilla de uma forma tranquilizadora.</p>
<p style="text-align:justify;">A jovem bonita e pálida aproximou-se e tirou o bebé à mãe cansada.</p>
<p style="text-align:justify;">– Que coisinha fofa – disse com meiguice.</p>
<p style="text-align:justify;">– Também vais a casa passar o Natal? – perguntou a tia Cyrilla.</p>
<p style="text-align:justify;">A rapariga meneou a cabeça.</p>
<p style="text-align:justify;">– Não tenho casa. Neste momento, não passo de uma empregada de balcão sem trabalho, e vou até Pembroke para procurar um.</p>
<p style="text-align:justify;">A tia Cyrilla dirigiu-se ao cesto e tirou a caixa de caramelos de nata.</p>
<p style="text-align:justify;">– Penso que também devemos divertir-nos. Vamos comer tudo e passar o tempo da melhor maneira possível. Talvez cheguemos a Pembroke de manhã.</p>
<p style="text-align:justify;">O pequeno grupo começou a ficar cada vez mais animado à medida que petiscavam, e até a rapariga pálida ficou mais alegre. A jovem mãe contou a sua história à tia Cyrilla. Tinha sido afastada da família há muito tempo, porque não estavam de acordo com o seu casamento. O marido tinha morrido no Verão passado e deixou-a em circunstâncias muito precárias.</p>
<p style="text-align:justify;">– O meu pai escreveu-me a semana passada e pediu-me para esquecer o passado e vir a casa passar o Natal. Fiquei tão contente. E as crianças não pensavam em outra coisa. É horrível não conseguir lá chegar. Tenho de voltar para o emprego na manhã a seguir ao Natal.</p>
<p style="text-align:justify;">O rapaz de caqui aproximou-se de novo e partilhou do caramelo. Contou histórias divertidas sobre as operações militares na África do Sul. O sacerdote também se aproximou e ficou a ouvir, e até a senhora do casaco de pele de foca olhou para trás.</p>
<p style="text-align:justify;">Mais tarde, as crianças adormeceram, uma no colo da tia Cyrilla, outra no de Lucy Rose e duas no banco do comboio. A tia Cyrilla e a rapariga pálida ajudaram a mãe a fazer camas para eles. O sacerdote cedeu o sobretudo e a senhora do casaco de pele de foca aproximou-se com um xaile.</p>
<p style="text-align:justify;">– Isto serve para o bebé – disse.</p>
<p style="text-align:justify;">– Temos de arranjar um Pai Natal para estes jovens – disse o rapaz de caqui. – Vamos pendurar as meias deles na parede e enchê-las o melhor que pudermos. Não tenho mais nada, a não ser umas moedas e um canivete.</p>
<p style="text-align:justify;">– Eu também só tenho dinheiro – disse a senhora do casaco de pele de foca. A tia Cyrilla olhou para a jovem mãe. Tinha adormecido com a cabeça encostada às costas do banco.</p>
<p style="text-align:justify;">– Tenho ali um cesto – disse a tia Cyrilla com firmeza – e tenho lá alguns presentes que estavam destinados aos filhos do meu sobrinho. Vou dá-los a estas crianças. Quanto ao dinheiro, penso que a mãe está a precisar. Contou-me a sua história e é digna de pena. Vamos fazer uma colecta entre nós para um presente de Natal.</p>
<p style="text-align:justify;">A ideia foi bem acolhida. O rapaz de caqui passou o boné e todos contribuíram. A senhora de casaco de pele de foca colocou lá uma nota amarrotada. Quando a tia Cyrilla a endireitou, viu que se tratava de uma nota de vinte dólares.</p>
<p style="text-align:justify;">Entretanto, Lucy Rose tinha trazido o cesto. Sorriu para a tia Cyrilla, enquanto o arrastava até ao corredor, e a tia Cyrilla devolveu-lhe o sorriso. Lucy Rose nunca tinha tocado naquele cesto por iniciativa própria.</p>
<p style="text-align:justify;">O barco de Ray foi para Jack, a boneca de Daisy para a irmã mais velha, os lenços de mão de renda dos gémeos para as duas meninas mais pequenas e o gorro para o bebé. Depois, as meias foram enchidas com dónutes e biscoitos de geleia, e o dinheiro foi colocado dentro de um envelope e preso com um alfinete ao casaco da jovem mãe.</p>
<p style="text-align:justify;">– Aquele bebé é tão fofinho – disse a senhora do casaco de pele de foca. Faz-me lembrar o meu filhinho. Morreu há dezoito natais.</p>
<p style="text-align:justify;">A tia Cyrilla pôs a mão em cima da luva de pelica da senhora. – O meu também – disse.</p>
<p style="text-align:justify;">E depois, as duas mulheres sorriram com ternura uma para a outra. Mais tarde, descansaram um pouco das tarefas e todos comeram o que a tia Cyrilla chama um «lanche» de sanduíches e bolo inglês. O rapaz de caqui disse que nunca tinha provado nada nem de longe tão bom, desde que saíra de casa.</p>
<p style="text-align:justify;">– Na África do Sul não nos davam bolo inglês – disse.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando amanheceu, a tempestade ainda era intensa. As crianças acordaram e ficaram loucas de alegria com as meias. A jovem mãe encontrou o envelope e tentou exprimir um agradecimento, mas não conseguiu; e ninguém sabia o que dizer, nem o que fazer, quando, felizmente, o condutor veio fazer uma digressão para lhes dizer que talvez tivessem de se conformar com a ideia de passar o Natal no comboio.</p>
<p style="text-align:justify;">– Isto é grave – disse o rapaz de caqui – considerando que não temos provisões. Por mim não há problema, estou habituado a rações de combate, ou até a nenhuma. Mas estas crianças vão ter um apetite enorme.</p>
<p style="text-align:justify;">Então, a Tia Cyrilla mostrou-se à altura para a ocasião.</p>
<p style="text-align:justify;">– Tenho aqui algumas rações de emergência – anunciou. – Há comida suficiente para todos e vamos ter o nosso jantar de Natal, embora frio. Primeiro, o pequeno-almoço. Há uma sanduíche para cada um e só temos de completar com o que sobrou de biscoitos e dónutes, e guardar o resto para uma refeição verdadeiramente boa ao jantar. A única coisa que não tenho é pão.</p>
<p style="text-align:justify;">– Tenho uma caixa de bolachas de água e sal – disse a jovem mãe, ansiosa.</p>
<p style="text-align:justify;">Ninguém na carruagem iria esquecer aquele Natal. Para começar, depois do pequeno-almoço, tiveram um concerto. O rapaz de caqui deu dois recitais, cantou três canções e fez um solo de assobio. Lucy Rose deu dois recitais e o sacerdote fez uma leitura de histórias cómicas. A pálida empregada de balcão cantou duas canções. Todos concordaram que o solo de assobio do rapaz de caqui tinha sido o melhor número, e a tia Cyrilla deu-lhe um ramo de perpétuas como prémio de mérito.</p>
<p style="text-align:justify;">Depois, o maquinista veio com notícias mais animadoras, dizendo que a tempestade estava quase a passar e que pensava que o caminho ficaria livre dentro de algumas horas.</p>
<p style="text-align:justify;">– Se conseguirmos chegar até à próxima estação, ficaremos todos bem – disse. – O ramal une-se ali à linha principal e os trilhos estarão limpos.</p>
<p style="text-align:justify;">À tardinha, jantaram. Os ajudantes do comboio foram convidados a participar. O sacerdote trinchou a galinha com o canivete do homem do vagão do travão e o rapaz de caqui cortou a língua e as tortas, enquanto a senhora do casaco de pele de foca misturava o vinagre de framboesa com a devida proporção de água. Pedaços de papel serviram de pratos. O comboio forneceu dois copos, e foi encontrada uma lata de meio litro de água e dada às crianças.</p>
<p style="text-align:justify;">Todos declararam que nunca tinham desfrutado tanto de uma refeição em toda a sua vida. Foi, de facto, uma refeição muito divertida, e os cozinhados da tia Cyrilla nunca foram tão apreciados; de facto, só sobraram os ossos da galinha e os frascos das compotas. Não puderam comer as compotas, porque não tinham colheres, por isso, a tia Cyrilla deu-as à jovem mãe.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando tudo terminou, foi feito um voto sincero de agradecimento à tia Cyrilla e ao seu cesto. A senhora do casaco de pele de foca quis saber como é que ela fazia o bolo inglês e o rapaz de caqui pediu-lhe a receita dos biscoitos de geleia. E quando, duas horas mais tarde, o maquinista veio anunciar que o limpa-neve tinha chegado e que, em breve, retomariam o caminho, todos se interrogaram se só teriam passado menos de vinte e quatro horas desde que se conheceram.</p>
<p style="text-align:justify;">– Sinto que estive com a senhora no campo de batalha toda a minha vida – disse o rapaz de caqui.</p>
<p style="text-align:justify;">Saíram todos na primeira estação. A jovem mãe e os filhos tiveram de apanhar o comboio seguinte de volta para casa. O sacerdote ficou ali, o rapaz de caqui e a senhora do casaco de pele de foca mudaram de comboio. A senhora do casaco de pele de foca deu um cumprimento de mão à tia Cyrilla. Não voltara a mostrar-se triste nem zangada.</p>
<p style="text-align:justify;">– Foi o Natal mais agradável que alguma vez passei – disse com convic ção. – Nunca irei esquecer-me desse seu cesto maravilhoso. A empregadinha de balcão vai para minha casa. Prometi-lhe um lugar na loja do meu marido.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando a tia Cyrilla e Lucy Rose chegaram a Pembroke, não havia ninguém à espera delas, pois todos haviam desistido. A casa de Edward não era muito longe da estação e a tia Cyrilla decidiu ir a pé.</p>
<p style="text-align:justify;">– Eu levo o cesto – disse Lucy Rose.</p>
<p style="text-align:justify;">A tia Cyrilla acedeu com um sorriso. Lucy Rose sorriu também.</p>
<p style="text-align:justify;">– É um velho cesto abençoado – disse a última – e adoro-o. Por favor, esqueça todas as patetices que sempre disse sobre ele, tia Cyrilla.</p>
<p style="text-align:right;">L. M. Montgomery</p>
<p style="text-align:right;">Ian Whybrow (org.)<br />
<em>O grande livro do Natal</em><br />
Porto, Edições Asa, 2004<br />
Adaptação</p>
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		<title>Hoje é Natal &#8211; José Vaz</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Nov 2009 21:58:43 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[HOJE É NATAL O avô Fernando chegou de longe com uma mala muito pesada. Ajudei-o a levá-la para o meu quarto e não o larguei mais, enquanto não a abriu. O que traria ele dentro daquela mala tão grande? Prendas de Natal? Surpresas? Brinquedos? Livros? – perguntava a mim próprio. Mortinho de curiosidade, andei à [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=prepararonatal.wordpress.com&amp;blog=1641256&amp;post=58&amp;subd=prepararonatal&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><strong><em>HOJE É NATAL</em></strong></p>
<p style="text-align:justify;">O avô Fernando chegou de longe com uma mala muito pesada. Ajudei-o a levá-la para o meu quarto e não o larguei mais, enquanto não a abriu. O que traria ele dentro daquela mala tão grande? Prendas de Natal? Surpresas? Brinquedos? Livros? – perguntava a mim próprio. Mortinho de curiosidade, andei à sua volta como uma mosca, a zumbir perguntas.</p>
<p style="text-align:justify;">— Ó avô, o que é que trazes?</p>
<p style="text-align:justify;">— Tem calma, tem paciência, que logo te mostro! – aconselhou, ainda com a voz ofegante por ter carregado comigo aquela mala.</p>
<p style="text-align:justify;">— Anda lá, diz-me só a mim, que eu não digo a mais ninguém!</p>
<p style="text-align:justify;">— As prendas e as surpresas só se mostram logo, depois da ceia. Não sejas chato!</p>
<p style="text-align:justify;">— Diz-me, que eu prometo guardar segredo! – insisti.</p>
<p style="text-align:justify;">Como tinha de entregar à minha mãe uns produtos para a ceia, que tinha trazido da sua terra, começou a abrir a mala devagarinho e eu fiquei à espera que de lá de dentro saísse qualquer coisa de mágico: um avião que voasse – vrrruuum, vrrruuummm – ou uma coisa assim&#8230; capaz de fazer pasmar os meus amigos.<span id="more-58"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Mas não. Apareceram, entre a escova de dentes, a gilete, o pincel da barba, uma toalha de rosto e o pijama do meu avô, vários embrulhinhos amarrados<sup> </sup>com fitas coloridas, uma garrafa de azeite, um queijo, uma broa de Avintes, um frasco de azeitonas e uma garrafa que parecia ter dentro água amarela.</p>
<p style="text-align:justify;">— Avô, que prenda me vais oferecer?</p>
<p style="text-align:justify;">— Que prenda me vais dar a mim?</p>
<p style="text-align:justify;">Não lhe respondi. A um canto, estava um rolo envolvido em papel azul-marinho, prateado.</p>
<p style="text-align:justify;">— E isso, o que é? É um telescópio? É um caleidoscópio?</p>
<p style="text-align:justify;">— Olha que tu és muito pegajoso! Está bem, pronto! Eu digo-te, se não, nunca mais te calas. Isso é uma luz para o Natal!</p>
<p style="text-align:justify;">— É de ligar à electricidade? É de acender? É uma estrela para pôr no presépio? – perguntei, agitado.</p>
<p style="text-align:justify;">— Não. Isto é o Espírito do Natal! – exclamou o meu avô, com mistério na voz.</p>
<p style="text-align:justify;">— Espírito? Igual àquele da Lâmpada do Aladino? Se esfregar, sai um génio que faz tudo o que a gente quer? Ó avô és mesmo fixório! Mostra, avô, mostra!</p>
<p style="text-align:justify;">Para não me aturar mais, ele ia a desembrulhar o rolo de papel prateado, quando foi salvo da minha curiosidade pelo chamamento da minha mãe:</p>
<p style="text-align:justify;">— Venham para a mesa!</p>
<p style="text-align:justify;">O meu avô, ainda a arfar da viagem, desceu devagar com a mão no corrimão, e eu acompanhei-lhe os passos.</p>
<p style="text-align:justify;">O meu pai fechou-se na sala de jantar e, querendo fazer um bonito, não nos deixou entrar na sala, onde a mesa já estava posta para a ceia.</p>
<p style="text-align:justify;">As luzes estavam apagadas e a porta fechada. Quando íamos para entrar, o meu pai, muito teatreiro e eufórico, fez:</p>
<p style="text-align:justify;">— Te te te tzzéééé! ! ! – e abriu a porta e as luzes.</p>
<p style="text-align:justify;">Senti uma baforada quente e fui abraçado por um cheirinho a rabanadas, a sonhos, a filhoses, a aletria com desenhos de canela e a bilharacos, que era um doce que o meu avô apreciava muito.</p>
<p style="text-align:justify;">A iluminação da sala estava um espanto, a mesa um espectáculo, a lareira soltava línguas de fogo e a música ambiente eram as vozes de anjos de um CD que a minha mãe comprara de propósito para aquela noite.</p>
<p style="text-align:justify;">Por cima da lareira, o meu pai pôs o presépio e ao canto construiu uma Árvore de Natal, apenas com ramos de pinheiro, porque pensava ele que as árvores não se deviam abater.</p>
<p style="text-align:justify;">Disse-me uma vez:</p>
<p style="text-align:justify;">— Se um dia tiveres de cortar uma árvore, deves pedir-lhe desculpa, ouviste? Uma árvore é um ser vivo!</p>
<p style="text-align:justify;">O meu avô dirigiu-se ao presépio, mirou-o e remirou-o e, por fim, disse:</p>
<p style="text-align:justify;">— Que engraçado! Nunca vi um presépio assim: o Menino Jesus está ao colo da mãe e a manjedoura vazia. Ó Castro, dou-te os meus parabéns, o presépio está muito bonito!</p>
<p style="text-align:justify;">Os olhos do meu pai brilharam com o elogio.</p>
<p style="text-align:justify;">E sabem porquê? É que o meu avô achava que o meu pai era um bocado azelhote para fazer coisas e habilidades com as mãos.</p>
<p style="text-align:justify;">Era a primeira vez que ele vinha a nossa casa, depois do segundo casamento da minha mãe.</p>
<p style="text-align:justify;">Para o impressionar, os meus pais receberam-no com mimos e atenções como se fosse um rei.</p>
<p style="text-align:justify;">Por causa disso, eu comecei a ficar um bocado chateado. Até parecia que os meus pais, naquela noite, decidiram riscar-me do mapa das suas atenções.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas não, para mim, aquele Natal não foi só uma noite de paz, foi uma noite de pazes.</p>
<p style="text-align:justify;">— Ah, já me esquecia&#8230; Olha, Mário, vai à minha mala buscar o Espírito do Natal, mas trá-lo com cuidado, não lhe mexas, ouviste? – pediu-me o avô Fernando.</p>
<p style="text-align:justify;">O meu pai e a minha mãe cruzaram os olhos de interrogação, ao saber que o meu avô tinha trazido para casa um espírito.</p>
<p style="text-align:justify;">Subi a correr as escadas que davam para o meu quarto e senti que os bichos carpinteiros da curiosidade me atacavam com perguntas:</p>
<p style="text-align:justify;">— O que estaria dentro daquele rolo de papel prateado? Seria mesmo um espírito? E os espíritos têm a forma de um charuto comprido? Seria uma brincadeira ou uma história do meu avô? Pelo sim e pelo não, passei os dedos, ao de leve, pelo rolo.</p>
<p style="text-align:justify;">E se o tal espírito saísse do tubo e me falasse: “Diz-me, Mário, meu amo, que desejas? Diz-me, que a tua vontade será satisfeita!”</p>
<p style="text-align:justify;">Se isso me acontecesse, o que é que eu desejaria? Sei lá, se não ficasse atrapalhado, era capaz de pedir:</p>
<p style="text-align:justify;">— Ó alma boa, ó espírito da luz, quero que arranjes alguém que me faça os deveres de casa, quero um avião a sério que aterre no meu pátio e quero uma moto a motor!</p>
<p style="text-align:justify;">Estava a minha imaginação com gás na tábua quando ouvi a voz do meu avô:</p>
<p style="text-align:justify;">— Então, vens ou não?!</p>
<p style="text-align:justify;">Desci as escadas a correr e entreguei-lhe o rolo de papel prateado. Fiquei à espera, para ver o que de lá saía.</p>
<p style="text-align:justify;">Era agora, era agora que eu ia conhecer o tal Espírito do Natal. Como o avô desembrulhou o rolo com muito cuidadinho, eu comecei a acreditar que, se calhar, havia ali mesmo qualquer mistério.</p>
<p style="text-align:justify;">Desenrolou, desenrolou, até que… apareceu uma simples vela de cera branca.</p>
<p style="text-align:justify;">— Oooohhhh! Uma vela! – disse de mim para mim, muito desiludido.</p>
<p style="text-align:justify;">Embora a sala estivesse inundada de luz, o avô Fernando riscou um fósforo, pediu à minha mãe um castiçal, acendeu a vela e colocou-a no centro da mesa. Depois, disse:</p>
<p style="text-align:justify;">— Na chama desta vela mora o Espírito do Natal! Nesta noite, nesta mesa e nesta chama, para mim estarão presentes todos os nossos antepassados, todas as nossas recordações e todas as pessoas de quem gostamos. Está o meu pai e a minha mãe, está a tua&#8230; está a tua&#8230; avó que Deus tenha&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">O meu avô parou de falar e, em vez de palavras, saíram apenas lágrimas grossas que escorreram pela cara abaixo.</p>
<p style="text-align:justify;">O silêncio que se fez foi tão grande que ficámos todos muito encolhidos, sem saber o que dizer.</p>
<p style="text-align:justify;">Quem nos salvou do peso do silêncio e das lágrimas foi a minha mãe:</p>
<p style="text-align:justify;">— Então, então, pai, hoje é Natal! – falou baixinho a minha mãe, misturando a fala com um beijo.</p>
<p style="text-align:justify;">— Vamos à ceia! – disse, por fim, o avô, ainda com a coragem engasgada.</p>
<p style="text-align:justify;">Depois, comemos, rimos, jogámos ao rapa, ao tira, ao deixa e ao põe até que chegou a hora da distribuição das prendas.</p>
<p style="text-align:justify;">O meu pai deu-me um livro, a minha mãe uma camisa aos quadrados e o meu avô umas grossas meias de lã.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu fiquei muito desconsolado porque esperava um brinquedo de espanto, daqueles que fizessem roer de inveja os colegas da rua. O meu avô andava sempre com os pés frios e trouxe meias de lã porque, se calhar, pensou que sofríamos todos do mesmo mal.</p>
<p style="text-align:justify;">Estava tudo a correr bem. Até o meu pai, que andava quase sempre, “cabisbundo” e “meditabaixo”, ria-se, ria-se até mais não. A certa altura, o avô chamou-me para a sua beira e disse-me:</p>
<p style="text-align:justify;">— Olha para a luz da vela. Fixa o Espírito do Natal! O que vês? Eu lá olhei, mas o que via era que a chama se inclinava, lenta mente, ora para um lado, ora para o outro.</p>
<p style="text-align:justify;">— Vês alguma coisa?</p>
<p style="text-align:justify;">— Não vejo nada. Só a chama a dizer não, devagarinho!</p>
<p style="text-align:justify;">— Para mim, na Noite de Natal, esta chama significa tudo o que o ser humano tem de bom dentro de si: a saudade do amor, da amizade e da partilha das coisas. É por isso que lhe chamo o Espírito do Natal. Nesta noite, quando fixo a luz da vela, diante dos meus olhos passam, como se fosse em cinema, histórias e vidas das pessoas que amei e se cruzaram comigo ao longo dos anos.</p>
<p style="text-align:justify;">Estou agora a olhar para ela e estou a lembrar-me do Natal mais lindo que eu tive em toda a minha vida. Queres que te conte?</p>
<p style="text-align:justify;">— Conta, avô, conta!</p>
<p style="text-align:justify;">— Mas olha que é uma história triste! Mas verdadeira!</p>
<p style="text-align:justify;">— Não faz mal! Mesmo assim, conta!</p>
<p style="text-align:justify;">A minha mãe e o meu pai aproximaram-se do sítio onde nós estávamos. O avô fixou os seus olhos de formiga na chama da vela e, com uma voz quente e pausada&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">— No tempo em que o Natal custava a chegar, vivia eu numa casa pequenina. Eu era pobre e não tinha brinquedos, mas não me importava. Bastava o cheiro que andava pelas ruas e pelos caminhos a fazer miminhos de fraternidade no coração das pessoas.</p>
<p style="text-align:justify;">Era por isso que, quando tinha a tua idade, na véspera de Natal, ao passar pelas outras pessoas, dizia, cheio de alegria:</p>
<p style="text-align:justify;">— Hoje é Natal!</p>
<p style="text-align:justify;">A pouca distância de minha casa, havia uma outra, que não era bem casa. As paredes eram de chapa velha e o chão de terra batida.</p>
<p style="text-align:justify;">O vento entrava por tudo o que era frincha e o frio estava ali plantado.</p>
<p style="text-align:justify;">Uma fogueira fazia de fogão e a única cama que havia era feita de paus de pinheiro, ainda por descascar.</p>
<p style="text-align:justify;">E nessa casa que não era bem casa, tão pequenininha e tão pobre de tudo, morava a Ti Adelaide Tintureira e os seus filhos: a Rosa e o Domingos.</p>
<p style="text-align:justify;">Esta mulher de pele enrugada, de olhos verdes e vida amargurada foi, um dia, transformada em pássaro negro. Por duas vezes se quis matar, atirando-se da ponte de D. Luís para o rio Douro.</p>
<p style="text-align:justify;">Da primeira vez, as saias largas que usava amorteceram a queda e um barqueiro que por ali andava viu-a e, remando rapidamente, retirou-a do rio, ainda com vida.</p>
<p style="text-align:justify;">Da segunda vez que se quis matar estava muito vento. Ao atirar-se da ponte, uma rajada empurrou-a contra os fios de electricidade e neles ficou enrodilhada. Os bombeiros tiraram-na com vida, apenas ficando magoada no peito.</p>
<p style="text-align:justify;">Disseram as velhas da aldeia que tudo isso aconteceu porque o Anjo da Guarda da Ti Adelaide Tintureira, cansado de a proteger durante uma vida cheia de aflições, adormeceu duas vezes.</p>
<p style="text-align:justify;">E, nessas duas vezes, a Morte, ao ver aquela mulher de olhos tristes, transformada em ave negra, não a quis e devolveu-a, sã e salva, para viver o resto do seu destino.</p>
<p style="text-align:justify;">Naquele tempo, a Ti Adelaide Tintureira e os filhos viviam da venda da lenha, apanhada nos pinhais, e de pequenos serviços que lhe encomendavam. Ela e os filhos vestiam do que algumas “almas caridosas” lhe davam.</p>
<p style="text-align:justify;">Passavam muito mal e, quando se vive assim, nem é bom sentir o cheiro do Natal nem ouvir falar de prendas nem de rabanadas. Isso só serve para entristecer a vida de quem tem pouquinho.</p>
<p style="text-align:justify;">— Natal é um dia como os outros! – dizia a Ti Adelaide Tintureira para tentar convencer os filhos a não olharem para as roupas novas que os outros meninos vestiriam no dia seguinte.</p>
<p style="text-align:justify;">Na noite de Natal, em cima da nossa pequena mesa, já fumegava a travessa de bacalhau cozido com batatas e couves-galegas.</p>
<p style="text-align:justify;">Nesse ano, para além das rabanadas, havia um bocadinho de queijo, uns pastéis comprados no Porto e uma garrafa de vinho fino, oferecida pelo Ti Zé Estureta, como consoada, por lhe gastarmos da mercearia.</p>
<p style="text-align:justify;">Para operários de vida dura, aquela ceia de Natal era quase um banquete de rei.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando íamos iniciar a refeição da noite de Natal&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">— E se fôssemos chamar a Ti Adelaide Tintureira e os seus filhos para cearem com a gente? – propôs o meu pai.</p>
<p style="text-align:justify;">A minha mãe disse que sim e, momentos depois, eu batia à porta da barraca da Ti Adelaide Tintureira.</p>
<p style="text-align:justify;">Lá dentro, a chama da candeia de azeite furava a escuridão e os olhos da Rosa e do Domingos enchiam de tristeza aquela noite, que não era bem igual às outras.</p>
<p style="text-align:justify;">Sem saber o que dizer nem fazer, seguiram-me até à porta da minha cozinha.</p>
<p style="text-align:justify;">Disseram boa noite com voz sumida e, quando se sentaram à volta da mesa daquela família de pobres operários, que era a minha, dei com uns olhos verdes, acesos de alegria.</p>
<p style="text-align:justify;">Eram os da Ti Adelaide Tintureira que pagava aquele gesto bonito com um olhar que já não usava há muito tempo: um olhar de felicidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando acabámos de comer e de jogarmos o rapa a pinhões, vim cá fora e, pelo intervalo das folhas de uma laranjeira, vi, lá longe, o brilho de uma estrelinha que mais ninguém viu.</p>
<p style="text-align:justify;">Agora, quando olho para o céu, lembro-me dos olhos acesos da Ti Adelaide Tintureira, que foram morar para as estrelas e que me aparecem, na noite de Natal, para me recordarem dos bons sentimentos que ainda não foram apagados do coração das pessoas.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando o avô Fernando se calou, olhei para a chama da vela e senti que o Espírito do Natal estava ali e me tinha visitado naquela noite.</p>
<p style="text-align:right;">José Vaz<br />
<em>Hoje é Natal<br />
</em>Ed. Gailivro, 2000</p>
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		<title>O melhor presente de Natal do mundo</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Dec 2008 22:10:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pnatal</dc:creator>
				<category><![CDATA[Noite de Natal]]></category>
		<category><![CDATA[Paz]]></category>

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		<description><![CDATA[O melhor presente de Natal do mundo A todos quantos, de ambos os lados do conflito, tomaram parte na trégua de Natal de 1914. Vi-a numa loja de velharias em Bridport. Era uma escrivaninha de tampo corrediço, e o vendedor afirmava tratar-se de uma peça de carvalho do início do século XIX. Havia anos que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=prepararonatal.wordpress.com&amp;blog=1641256&amp;post=38&amp;subd=prepararonatal&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><strong>O melhor presente de Natal do mundo</strong></p>
<p style="text-align:right;"><em>A todos quantos, de ambos os lados do conflito,<br />
tomaram parte na trégua de Natal de 1914.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Vi-a numa loja de velharias em Bridport. Era uma escrivaninha de tampo corrediço, e o vendedor afirmava tratar-se de uma peça de carvalho do início do século XIX. Havia anos que procurava uma escrivaninha deste estilo, mas nunca tinha encontrado uma que pudesse comprar. Esta não estava em bom estado: a tampa mostrava várias rachadelas, uma das pernas estava mal consertada, e tinha partes queimadas.<span id="more-38"></span><br />
Não era cara, e pensei que eu próprio poderia tentar restaurá-la. Seria um risco, um desafio, mas era a minha única oportunidade de possuir uma escrivaninha de tampo corrediço. Paguei o que o homem pediu, e levei-a para a minha oficina, na parte de trás da garagem. Comecei a restaurá-la na véspera de Natal, sobretudo devido à quantidade de visitas que tinha em casa. Faziam muito barulho e eu queria encontrar algum sossego.<br />
Abri o tampo e puxei as gavetas. Cada uma delas anunciava um desafio maior do que eu tinha imaginado. O verniz estava a descascar um pouco por todo o lado: parecia que a peça tinha sido salva de um naufrágio. Era evidente que esta escrivaninha tinha atravessado fogo e água. A última gaveta estava empenada e tentei abri-la com cuidado. Mas os meus esforços não resultaram e tive de usar toda a força que pude. Bati-lhe com o punho e logo ela se abriu, revelando um compartimento secreto. Este continha uma pequena caixa de folha, com uma folha de papel pautada, na qual a mão trémula de alguém tinha escrito: “A última carta de Jim, recebida a 25 de Janeiro de 1915. Para ser enterrada comigo, quando eu morrer.”<br />
Soube, logo que o fiz, que não deveria abrir a caixa, mas a curiosidade levou a melhor sobre os meus escrúpulos. Como sempre.<br />
Dentro da caixa estava um envelope, endereçado a Mrs Jim Macpherson, 12 Copper Beeches, Bridport, Dorset. Peguei na carta e abri-a. Estava escrita a lápis e datava de 26 de Dezembro de 1914.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Querida Connie</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Escrevo-te, feliz, porque acaba de acontecer algo de maravilhoso que quero contar-te desde já. Ontem de manhã, encontrávamo-nos todos nas trincheiras. Era Dia de Natal e estava uma das manhãs mais bonitas que vira até então, tranquila e gelada como uma manhã de Natal deve ser.<br />
Gostava de poder dizer-te que fomos nós a ter a iniciativa. Mas a verdade, envergonho-me de to dizer, foi que os Alemães é que tomaram a iniciativa. Primeiro, alguém viu uma bandeira branca a ondular nas trincheiras do inimigo. Depois, alguém gritou:<br />
— Feliz Natal! Feliz Natal!<br />
Quando nos tínhamos recomposto da surpresa, alguns de nós retribuíram:<br />
— Feliz Natal para vocês também!<br />
Pensei que tudo ficaria por ali. Todos pensámos, aliás. Mas, de repente, vimos um deles, no seu sobretudo cinzento, a agitar uma bandeira branca.<br />
— Não atirem, rapazes! — alguém gritou.<br />
E logo vimos mais Alemães, uns a seguir aos outros, a aproximar-se da nossa trincheira.<br />
— Mantenham-se em baixo — ordenei aos meus homens. — É uma armadilha.<br />
Mas não era tal.<br />
Um dos Alemães agitava uma garrafa no ar.<br />
— É Dia de Natal. Temos cerveja e salsichas. Querem juntar-se a nós?<br />
Por esta altura, já dezenas deles se dirigiam até nós, atravessando a terra de ninguém que nos separava. Nenhum deles transportava armas.<br />
O soldado Morris foi o primeiro a mexer-se.<br />
— Vamos lá, rapazes! De que estamos à espera?<br />
Ninguém conseguiu impedi-los. Eu era o oficial e devia ter travado tudo aquilo imediatamente. Mas nem sequer me ocorreu. Homens de ambos os lados, vestidos com sobretudos cinzentos ou com uniformes caqui, caminhavam em direcção uns aos outros, e eu era um deles. Fazia parte daquilo. No meio da guerra, celebrávamos a paz.<br />
Não podes imaginar, querida Connie, o que senti, quando olhei, nos olhos, o oficial alemão que se aproximava de mim, com a mão estendida.<br />
— O meu nome é Hans Wolf — disse, segurando a minha mão com firmeza e afabilidade. — Sou de Dusseldorf e toco violoncelo na orquestra da cidade. Feliz Natal!<br />
— Sou o Capitão Jim Macpherson — respondi. — Sou professor em Dorset, no leste de Inglaterra. Feliz Natal para si, também!<br />
— Dorset — repetiu. — Conheço muito bem esse lugar.<br />
Partilhámos a minha ração de aguardente e a excelente salsicha dele. E falámos, falámos sem parar. O inglês dele era excelente, mas acontece que nunca tinha posto os pés em Dorset. Tudo o que sabia sobre Inglaterra tinha-o aprendido na escola e nos livros que lia em inglês. O seu escritor favorito era Thomas Hardy,e o seu livro preferido</em> Far from the Madding Crowd<em>. Naquela terra de ninguém, conversámos sobre Bathsheba, Gabriel Oak, Sergeant Troy e Dorset. Tinha mulher e um filho, com seis meses de idade. Enquanto olhava à minha volta, só via manchas de cor cinzenta e caqui a fumar, a rir, a comer e a beber. Hans Wolf e eu partilhámos o que restava do teu óptimo bolo de Natal. Segundo ele, o teu maçapão era o melhor que alguma vez provara. Concordei. Concordávamos em tudo, Connie, e ele era meu inimigo. Nunca houvera uma festa de Natal assim.<br />
Alguém trouxe uma bola de futebol. Os sobretudos foram despidos e transformados em postes de balizas. O jogo começou. Hans Wolf e eu assistimos e encorajámos os jogadores, aplaudindo e batendo com os pés no chão, para afastarmos o frio. Houve um momento em que vi a nossa respiração misturar-se. Ele viu o mesmo e sorriu.<br />
— Jim Macpherson — disse, passado um bocado — penso que é assim que esta guerra devia ser resolvida. Como um jogo de futebol. Ninguém morre num jogo de futebol. Ninguém fica órfão. Nenhuma mulher fica viúva.<br />
— Prefiro o críquete — disse-lhe. — Assim, os Ingleses ganhariam.<br />
Rimo-nos da minha piada e assistimos ambos ao jogo. Pena-me dizer que os Alemães ganharam 2-1. Mas Hans Wolf comentou, com generosidade, que o nosso golo fora mais bem marcado do que o deles.<br />
Quando o jogo acabou, já há muito tinham desaparecido a cerveja, o bolo, a aguardente e as salsichas. Desejei felicidades a Hans e fiz votos de que voltasse a ver a família em breve, de que a guerra acabasse depressa, e de que todos regressássemos a casa sãos e salvos. Respondeu-me:<br />
— Penso que é o que todos os soldados querem, sejam Alemães ou Ingleses. Tome cuidado consigo, Jim Macpherson. Nunca o esquecerei, nem esquecerei este momento.<br />
Fez-me continência e afastou-se, devagar, como que involuntariamente. Virou-se para acenar, uma vez mais, e logo se transformou num elemento mais, entre as centenas de homens vestidos de cinzento, que regressavam às suas trincheiras.<br />
Nessa noite, ouvimo-los entoar um belo cântico de Natal,</em> Noite Fel<em>iz. Os nossos rapazes responderam com</em> Enquanto os pastores observavam<em>. Trocámos cânticos durante mais algum tempo e depois calámo-nos. Foi um momento de paz e boa vontade, que recordarei com carinho enquanto viver.</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Querida Connie, no Natal do ano que vem, esta guerra não será mais do que uma recordação vaga e terrível. Sei, por tudo o que aconteceu hoje aqui, o quanto ambos os exércitos desejam a paz. Em breve estaremos de novo juntos, tenho a certeza. </em></p>
<p style="text-align:right;"><em>O teu querido Jim</em></p>
<p style="text-align:justify;">Dobrei a carta e coloquei-a de novo no envelope. Não contei a ninguém o meu achado: guardei para mim mesmo a vergonha da minha intrusão. Penso que foi este sentimento de culpa que me manteve toda a noite acordado. Na manhã seguinte, já sabia o que devia fazer. Apresentei uma desculpa qualquer e não fui à igreja com o resto da família. Guiei até Bridport, que ficava apenas a uns quilómetros dali. Perguntei a um rapaz, que passeava o cão, onde ficava a casa.<br />
O número 12 não passava de uma concha vazia, com um telhado em ruínas e as janelas entaipadas. Toquei na casa ao lado e perguntei se sabiam o paradeiro de Mrs Macpherson. Um homem de idade, em pantufas, respondeu afirmativamente. Disse que era uma senhora amorosa, um pouco confusa, o que era normal, dado que tinha 101 anos. Estava em casa quando esta se incendiou. Ninguém sabia como o incêndio começara, mas pensavam que deveriam ter sido as velas. A senhora usava velas em vez de electricidade, porque achava que a electricidade era demasiado cara. O bombeiro tinha-a salvo a tempo. Agora vivia num lar chamado Burlington House, na estrada de Dorchester, do outro lado da cidade.<br />
Encontrei Burlington House com facilidade. Havia serpentinas de papel no corredor e uma árvore de Natal iluminada estava montada num canto, com um anjinho no topo. Disse que era um amigo de Mrs Macpherson e que viera trazer-<br />
-lhe um presente de Natal. Podia ver, através da porta envidraçada da sala que estavam todos com chapéus de papel e a cantar Good King Wenceslas. A Directora também usava um chapéu e ficou contente por me ver. Até me ofereceu uma empada de carne picada. Depois conduziu-me ao quarto de Mrs Macpherson.<br />
— Mrs Macpherson não está na sala com os outros, porque hoje sente-se bastante confusa. Não tem família e ninguém a visita. Tenho a certeza de que vai gostar muito de o ver.<br />
Conduziu-me até uma estufa, cheia de cadeiras de palhinha e vasos com plantas, e deixou-me a sós com Mrs Macpherson. Esta encontrava-se sentada numa cadeira de rodas, com as mãos no regaço. O seu cabelo fino, branco e prateado, estava apanhado num rolo. Contemplava o jardim, absorta.<br />
— Olá! — saudei.<br />
Virou a cabeça e olhou-me com um olhar vago.<br />
— Feliz Natal, Connie! — continuei. — Encontrei isto. Penso que é seu.<br />
Enquanto eu falava, os olhos dela nunca se desviaram da minha cara. Abri a caixinha de folha e dei-lha. Os olhos dela iluminaram-se num reconhecimento do objecto e a sua face irradiou uma felicidade súbita. Falei-lhe da escrivaninha, de como a encontrara. Creio que não me ouviu. Ficou calada durante algum tempo, enquanto acariciava docemente a carta com os dedos.<br />
De repente, pegou na minha mão. Tinha os olhos marejados de lágrimas.<br />
— Bem me disseste que vinhas pelo Natal, querido. E eis-te aqui, o melhor presente de Natal do mundo. Vem para perto de mim e senta-te, meu querido Jim.<br />
Sentei-me ao lado dela e beijou-me a face.<br />
— Lia constantemente a tua carta. Era como se ouvisse a tua voz dentro da minha cabeça. Era uma maneira de sentir-te comigo. E agora estás mesmo. Agora que voltaste, podes ler a carta tu próprio. Queres lê-la? Só quero ouvir a tua voz de novo, Jim. Depois podemos tomar chá. Fiz-te um belo bolo de Natal em maçapão. Sei o quanto adoras maçapão.</p>
<p style="text-align:right;">Michael Morpurgo<br />
<em>The best Christmas present in the world</em><br />
London, Egmont Books, 2004<br />
Tradução e adaptação</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/prepararonatal.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/prepararonatal.wordpress.com/38/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/prepararonatal.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/prepararonatal.wordpress.com/38/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/prepararonatal.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/prepararonatal.wordpress.com/38/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/prepararonatal.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/prepararonatal.wordpress.com/38/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/prepararonatal.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/prepararonatal.wordpress.com/38/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/prepararonatal.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/prepararonatal.wordpress.com/38/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/prepararonatal.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/prepararonatal.wordpress.com/38/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=prepararonatal.wordpress.com&amp;blog=1641256&amp;post=38&amp;subd=prepararonatal&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O melhor Natal do António</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Dec 2008 21:42:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pnatal</dc:creator>
				<category><![CDATA[Natal]]></category>
		<category><![CDATA[Noite de Natal]]></category>

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		<description><![CDATA[O melhor Natal do António A mãe chegou a casa atordoada, a queixar-se dos pés e a barafustar contra as lojas cheias de pessoas. O pai do António é que ouviu: — Chego a casa e é este cheiro a fritos. Não estás farto de saber que me enjoa? Para mais grávida, e no oitavo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=prepararonatal.wordpress.com&amp;blog=1641256&amp;post=36&amp;subd=prepararonatal&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O melhor Natal do António</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A mãe chegou a casa atordoada, a queixar-se dos pés e a barafustar contra as lojas cheias de pessoas. O pai do António é que ouviu:<br />
— Chego a casa e é este cheiro a fritos. Não estás farto de saber que me enjoa? Para mais grávida, e no oitavo mês.<br />
— Desculpa — respondeu ele, atrapalhado — era para ser uma surpresa, gostas tanto de sonhos&#8230;<br />
— Olha, desculpa-me tu, mas sinto-me tão mal&#8230;<span id="more-36"></span><br />
Deram um beijo e ela foi deitar-se um pouco, agora a sentir-se mais culpada do que cansada, e foi ele, desconsolado, arrumar a cozinha.<br />
O António levantou-se do sofá, foi encostar a porta da sala e ligar a televisão. Desligou-a logo de seguida: todos os natais o mesmo filme!<br />
Felizmente, chegaram os avós e foram os três jogar à sueca aberta. Entretanto, os pais apareceram, com ar de quem já fizera as pazes e trouxeram figos, amêndoas, nozes, pistáchios e pinhões.<br />
A avó afastou os cabelos dos olhos da mãe do António, como fazia quando ela ainda era a sua filhota esgrouviada, e perguntou-lhe:<br />
— Lembras-te, Leonor, de quando ia buscar-te ao colégio e passávamos pela loja dos pássaros e eu te comprava um colar de pinhões? Só os comias em casa, porque gostavas de ir na rua com o colar, vaidosa&#8230;<br />
— Eram ao preço da chuva, não eram? Até custa a crer.<br />
Na televisão estava uma locutora a dizer que já ninguém enfeitava a árvore com fitas, que agora se usavam laços e que havia cada vez mais decorações de Natal: era o fecho das notícias. O António olhou para a árvore lá de casa, igual todos os anos, com bolas de várias cores e fitas prateadas e douradas, largas e muito fininhas, e pensou se seria uma árvore feia. Depois olhou para a locutora e percebeu que feia era ela.<br />
Quando a tia Cristina chegar — pensou o António — com o tio Rui e as gémeas, vai ter tudo de andar encostado às estantes, a encolher a barriga. Na casa da avó sempre há mais espaço; aqui, a árvore de Natal quase ocupa a sala.<br />
Faltava ainda o tio Gastão, mas esse não viria. É o único irmão do pai do António. Sente-se pouco à vontade entre muitas pessoas, de modo que não gosta especialmente do Natal, embora lembre com saudade os natais de quando era pequeno e os pais ainda eram vivos.<br />
Naquele dia, o tio tinha ido buscar o António para o levar a almoçar fora. Preferiram ir a pé, a sentir o frio seco dos dias de Natal que chama as lágrimas aos olhos, põe os narizes vermelhos e faz andar as pessoas mais depressa nas ruas.<br />
Passaram por três pais natais a distribuir publicidade de máquinas de lavar e coisas assim. Lembrou-se o António:<br />
— Se os miúdos mais pequenos vêem estes pais natais todos, ficam a perceber que não há aquele outro.<br />
E o tio Gastão, que há muitos anos deixou de acreditar no Pai Natal, pensou que realmente o que lhe valia era ter aquele sobrinho.<br />
No restaurante chinês, o António pediu duas tigelas de arroz chau-chau e três crepes, que comeu com garfo e faca, orgulhoso do tio, que comia com pauzinhos como se fosse a coisa mais fácil do mundo.<br />
Antes de se despedirem, já em casa, o tio Gastão tirou do bolso um presente para o António: uma enorme caneta preta, antiga e de tinta permanente, que o António se habituara a admirar no escritório do tio.<br />
Para o Zé Manel, o Natal significa ter mais formas de bolos para lamber, uma árvore para tentar deitar ao chão, com muitas bolas e fitas para arrancar, e o colo das gémeas. É difícil compreender a simpatia que ele tem pelas primas do António, mesmo porque elas são muito magricelas, e os gatos, muito naturalmente, preferem colos fofos. Como os bebés, aliás. Nem elas tão-pouco lhe deram alguma vez de comer. E, no entanto, desta vez, como sempre, assim que a Cláudia e a Vera chegaram, o bicho correu para elas e não as deixou mais. Elas sentaram-se muito juntinhas no sofá e o Zé refastelou-se, metade nas pernas de uma, metade nas da outra. Como se as duas tivessem um só colo, muito comprido — uma boa cama, embora dura.<br />
Qualquer par de gémeos é sempre um pouco cómico. Estas, então, imaginem: sempre juntas, sempre de auscultadores e a trocá-los — uma quer a toda a hora que a outra oiça uma música qualquer. O António farta-se de rir, mas elas não se sentem gozadas. Nunca amuam, riem-se simplesmente também. São muito boas pessoas.<br />
A mãe do António foi mostrar à irmã as prendas de Natal que já tinha recebido de amigos: tudo roupinhas para o bebé. A tia Cristina até pensou: coitada da Leonor, também há-de gostar de receber coisas para ela! Ainda bem que lhe comprei um perfume.<br />
De facto, não são só as crianças que precisam de mimo e, se a mãe do António tivesse lido os pensamentos da irmã, não teria depois dado tanta importância ao que ela disse.<br />
— Ainda todas amarelas, vá que não vá. Mas as outras&#8230; Jesus, que foleiras! — disse a tia Cristina.<br />
— Que mal é que têm?! — perguntou a mãe do António, a rir-se do entusiasmo com que a irmã protestava sempre, contra tudo e todos.<br />
— Mas tu não vês que as cores não dizem?<br />
— Olha, eu gosto&#8230; — arriscou a mãe do António.<br />
— Também, tu gostas de tudo.<br />
Foi só uma pequena falta de jeito, mas o certo é que a mãe do António ficou instantaneamente com um nó na garganta. Pôs-se a pensar no seu dia-a-dia, no que fazia e no que não fazia, no pequeno círculo de pessoas com quem se dava. Seria pouco?<br />
A tia Cristina não tinha querido magoar ninguém, até porque ela não achava realmente que a vida da irmã fosse pobre. E quando a mãe do António se escapou discretamente para a casa de banho, só houve uma pessoa que percebeu que alguma coisa não estava bem: foi o tio Rui. A sensibilidade dele deve ser das mais inteligentes de Portugal — até faz impressão. E como a cunhada é das maiores amigas que ele tem, foi-lhe fácil passar o serão a conversar com ela e a pedir-lhe opiniões e conselhos. Aos poucos, a mãe do António foi voltando a gostar de si própria.<br />
À meia-noite abriram-se as prendas. O António ficou um bocado decepcionado, porque queria um par de chuteiras e teve um par de sapatos. O que vale é que, com este par de inutilidades, os pais deram-lhe cinco volumes da colecção Langelot — agente secreto. Os avós desta vez não lhe deram peúgas, mas deram-lhe um pijama! Os tios é que lhe ofereceram uns binóculos fantásticos e as gémeas gravaram-lhe, da rádio, uma série de músicas da moda que não suportam, mas que sabem que ele adora. Foram impecáveis.<br />
Ainda não eram oito da manhã quando o pai acordou bruscamente o António: a mãe tinha começado com dores, tinha de a levar à maternidade. Não sabia se ela ia ter o bebé já ou se voltava para casa. Talvez por não se terem completado ainda os normais nove meses de gravidez, o pai do António estava incrivelmente nervoso. Pegava em coisas e largava-as, esquecia-se do que estava à procura, mexia-se demasiado e nunca mais saía de casa. Por fim encostou-se a um móvel e pousou a testa na mão, com um ar desesperado. A mãe do António também já estava prestes a perder a calma, menos pelas dores do que pelo marido. E suplicava:<br />
— Por favor, agora é a minha vez de estar nervosa e a tua de estares forte. Vamos embora!<br />
O António estava apavorado, mas percebeu que tinha de arranjar forças para se conter. E então, dando umas palmadinhas no braço do pai, começou a falar-lhe com voz firme:<br />
— Pai, quando fui eu, a mãe também teve dores, não foi? E depois passaram. A mãe não ficou com nenhuma raiva de mim, esqueceu tudo e ficámos os dois bem de saúde. Agora há-de ser a mesma coisa. E a mãe até faz ginástica para aprender a respirar bem e a ajudar o bebé a sair&#8230; não vai custar muito, pois não, mãe?<br />
— Vai ser canja — respondeu a mãe.<br />
Só quando se viu sozinho em casa é que o António pôde sentir medo à vontade. Sabia que não era canja. Mesmo tendo aprendido que as mulheres alargam durante a gravidez para o bebé poder passar, aquilo parecia-lhe uma grande violência.<br />
A tia chegou para lhe fazer companhia e disse-lhe que o mais provável era terem feito mal as contas e o bebé estar já prontinho. Explicou-lhe também que o segundo filho custa sempre menos, principalmente quando a mãe é novinha, e que na família dele todas as mulheres eram boas parideiras, pelo que dali a uma hora já teriam com certeza notícias. E começaram a pensar em nomes.<br />
— E se fosse Sebastião? — sugeriu o António.<br />
— Não, que esse come tudo, tudo, tudo.<br />
— E João?<br />
— Não, que lá morreu o João Ratão, cozido e assado no caldeirão.<br />
— E Rodrigo?<br />
— Rodrigo é a paixão da Júlia. Não conheces? Eu conto.<br />
E contou: o tio Rui e a irmã, a Júlia, cresceram numa quintarola, no Alentejo, onde havia um porquinho, muito gordinho e asseado, e mais meia dúzia de bichos: a porca, o porco, umas galinhas e um burro.<br />
A Júlia era levada da breca. Gostava de correr e assustar as galinhas, de cavalgar e de enfeitar o burro com colares, chapéus e écharpes da mãe. E adorava o porquinho, a quem dera o nome de Ro- drigo. Aqui é que começaram os problemas com os pais. Ora ia buscá-lo às escondidas, à noite, e o aconchegava entre as melhores camisolas ou as melhores mantas, numa gaveta aberta da cómoda do quarto; ora lhe punha uma babete e lhe dava às colheres dos melhores doces de ovos que havia na cozinha; ora tentava levá-lo às cavalitas, muito curvada e vermelha com aquele peso, quase a deixá-lo cair. Os pais tentaram tudo para a «curar» daquele amor. Primeiro tentaram convencê-la de que tudo aquilo era mal empregue num porco. Resposta da Júlia: «Devemos tratar bem os nossos amigos e ele é o meu maior amigo». Depois argumentaram que era bom ela fazer novos amigos, desta vez pessoas. Resposta da Júlia: «Mas quando fazemos novos amigos devemos esquecer os outros?». A seguir explicaram-lhe que as pessoas só brincam com animais de estimação, como cães, gatos, etc&#8230; e que os porcos eram animais úteis, bons no prato. Aí a Júlia desatou a berrar que o amigo dela não era só um porco, era o Rodrigo, que ela estimava muito; e que se alguém voltasse a falar em cozinhar o Rodrigo, ela deixava de comer o que quer que fosse. O pior é que os pais tinham a certeza absoluta de que ela faria tudo o que estava a dizer.<br />
A Júlia cresceu e o Rodrigo também. O tio Rui casou e mudou-se para Lisboa, onde conhecera a tia, e a Júlia só não casava porque não queria. Finalmente, houve um namorado que concordou que os ares de Lisboa não eram bons para o Rodrigo e que era melhor ficarem todos na terra deles. Casaram, lá estão, e não hão-de deixar nunca que alguém coma carne de Rodrigo à alentejana. Há-de morrer de velho, este porco.<br />
Acabada a história, tocou o telefone. Foi a tia Cristina que atendeu e, pela cara dela, o António percebeu logo que estava tudo bem. O parto tinha sido fácil, a mãe estava bem e já podia receber visitas, o bebé era pequenino e tinha de ficar ali uns dias sob vigilância, mas também parecia estar muito bem. E era uma menina! O António percebeu então que tinha sido um disparate preferir um irmão, pensar em nomes de rapazes e planear jogos de bola: agora estava tão contente com a irmã! Como era dia de Natal, o António decidiu que tinha de dar um presente à irmã e pediu por isso à tia Cristina que o levasse a uma loja de brinquedos, de caminho para a maternidade. Ela lembrou-lhe que todas as lojas estavam fechadas, mas que seria muito engraçado se o António desse à irmã o urso de que ele mais gostava quando era pequeno. Ele achou uma boa ideia e foram os dois fazer um grande embrulho, com uma fita cor-de-rosa, porque era para uma menina.</p>
<p style="text-align:right;">Mónica Leal da Silva<br />
<em>O melhor Natal do António</em><br />
Lisboa, Edições Cotovia, 1993</p>
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		<title>Charlie, o limpa-chaminés e o seu gato Farrusco</title>
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		<pubDate>Mon, 24 Nov 2008 22:33:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pnatal</dc:creator>
				<category><![CDATA[Natal]]></category>
		<category><![CDATA[Noite de Natal]]></category>

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		<description><![CDATA[  Dedicado a todas as crianças que nunca puderam celebrar o Natal Era uma vez um rapazinho chamado Charlie, que trabalhava como limpa-chaminés. Manter as chaminés limpas, para que o fogo que aquece a casa das pessoas possa arder forte e claro, é um trabalho sujo e difícil. Os limpa-chaminés têm de ser pequenos para [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=prepararonatal.wordpress.com&amp;blog=1641256&amp;post=34&amp;subd=prepararonatal&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em> </em></p>
<p style="text-align:right;"><em>Dedicado a todas as crianças que nunca puderam celebrar o Natal</em></p>
<p>Era uma vez um rapazinho chamado Charlie, que trabalhava como limpa-chaminés. Manter as chaminés limpas, para que o fogo que aquece a casa das pessoas possa arder forte e claro, é um trabalho sujo e difícil. Os limpa-chaminés têm de ser pequenos para conseguirem rastejar pelo fumeiro das chaminés e tirarem toda a fuligem e cinza; mas Charlie não se importava com a dificuldade do trabalho, pois diz-se que os limpa-chaminés trazem a sorte com eles e assim sendo, todas as pessoas que conhecia eram muito simpáticas para ele.</p>
<p>Sempre que ia pelas ruas com as suas escovas e vassouras, aproximavam-se pessoas que lhe tocavam para que ele lhes trouxesse sorte, ou então gritavam-lhe:</p>
<p>“Charlie, quando é que podes vir limpar a minha chaminé?”</p>
<p>Ele respondia de seguida: “Talvez para a semana, agora tenho muito que fazer.”</p>
<p>Charlie estava sempre muito ocupado com as chaminés.</p>
<p>Charlie não tinha bem uma casa à qual pudesse chamar a sua casa, pois ele era órfão e vivia com o seu gato Farrusco na arrecadação do padeiro Tibbs. Para poder viver ali, <span id="more-34"></span>Charlie varria o chão, limpava o forno do pão e dos bolos e a chaminé da padaria. O trabalho de Farrusco era caçar os ratos que se queriam enfiar nos sacos de farinha do padeiro Tibbs.</p>
<p>O padeiro Tibbs era um homem simpático sempre com um sorriso no rosto, e sempre que sobrava um pedaço de bolo ou de torta, dava-o a Charlie para o jantar.</p>
<p>Charlie estava sempre tão ocupado, que nunca tinha tempo para brincar. Todas as manhãs tinha que se levantar muito cedo para limpar o forno e sair logo a seguir para varrer as chaminés. Quando tinha trabalho do outro lado da cidade onde ficavam as casas mais bonitas, parava por vezes um momento, para ficar a olhar para as crianças que patinavam no lago gelado do parque.</p>
<p>“Ai, ai!” pensava ele, “gostava tanto de poder ficar aqui um bocadinho a andar de patins&#8230;”</p>
<p>No entanto havia sempre demasiado trabalho para ele fazer; para além disso uns patins de gelo custavam muito dinheiro e Charlie não ganhava muito por cada chaminé que limpava. Chegava apenas para comprar escovas novas e roupa quente.</p>
<p>Assim, tinha que se contentar em ver as outras crianças patinar e sonhar que um dia também ele o poderia fazer com os seus próprios patins.</p>
<p>Um dia, quando mais uma vez observava as crianças, uma rapariga afastou-se das outras e deslizou até ao lugar onde ele estava.</p>
<p>“Olá”, disse ela alegremente, “como te chamas?”</p>
<p>“Charlie” respondeu ele, “e tu?”</p>
<p>“Rebecca”, retorquiu ela, “mas os meus amigos chamam-me Becky. Já te vi aqui muitas vezes. Tu és um limpa-chaminés, não és?&#8230; Posso tocar-te para que me dês sorte?”</p>
<p>Sorridente estendeu a sua mão e tocou-lhe na manga.</p>
<p>“Porque é que não vens patinar connosco? Os meus amigos iam gostar de te conhecer.”</p>
<p>“Becky” disse ele atrapalhado, “eu preciso de trabalhar e além disso não tenho patins.”</p>
<p>“Podes experimentar os meus”, propôs-lhe ela, “servem-te de certeza por cima das botas e de qualquer modo eu preciso mesmo de descansar, pois estive a patinar toda a manhã.”</p>
<p>“Não te importas mesmo?” perguntou Charlie visivelmente contente.</p>
<p>“Claro que não”, assegurou-lhe ela, enquanto soltava os cordões das suas botas.</p>
<p>No momento em que Charlie ia apertar os patins apareceu uma senhora que os olhou de modo severo.</p>
<p>“Vem Rebecca. Não te disse já que não deves falar com estranhos e que não podes emprestar os teus patins?”</p>
<p>“Mas mãe&#8230;”, começou Becky a protestar.</p>
<p>“Sem desculpas, por favor”, interrompeu a mãe bruscamente, “e agora despacha-te, senão chegamos atrasadas à modista. Além disso, minha menina, não quero que tornes a falar com este rapaz de aspecto tão desleixado!”</p>
<p>“Desculpa Charlie”, segredou-lhe Becky com voz triste, “a mãe não se anda a sentir muito bem, ela não quis dizer aquilo. Não fiques zangado com ela.”</p>
<p>“Está bem”, disse Charlie com um ar compreensivo. No entanto a mãe já tinha levado Becky pela mão antes dele ter tempo de dizer mais alguma coisa. “Espero que a Becky não venha a ter problemas por minha causa”, pensou Charlie enquanto olhava para as duas, “mas eu tinha gostado mesmo de ter experimentado os patins.”</p>
<p>O Natal estava à porta e Charlie tinha ainda mais trabalho que o habitual. O padeiro Tibbs tinha imensas encomendas para os dias das festas e por isso Charlie tinha agora muito mais que limpar na padaria do que noutra época do ano. Muitas pessoas também queriam as suas chaminés bem esfregadas antes das noites frias de Inverno, para que o lume pudesse arder com mais força. Charlie andava tão ocupado, que ainda não tinha tido oportunidade de ir ver de novo as crianças andarem de patins, mas enquanto trabalhava, imaginava o dia em que juntamente com Becky poderia patinar no lago gelado – nos seus próprios patins!</p>
<p>Depressa chegou a noite de Natal e Charlie pendurou a sua meia por cima do grande forno da padaria.</p>
<p>“Eu não queria muitas prendas querido Pai Natal,” disse Charlie em voz alta, “só adoraria ter uns patins para o gelo.”</p>
<p>De seguida, deu um prato de leite ao Farrusco e saltou para a sua cama feita de sacos de farinha.</p>
<p>Enquanto do céu chuviscavam flocos de neve e as doze badaladas soavam na torre da igreja, ouviu-se bater devagarinho na janela da arrecadação. Charlie sentou-se, completamente desperto, e viu pela janela uma cara com barbas brancas onduladas que lhe sorria. Era o Pai Natal em pessoa!!</p>
<p>Com um sorriso de grande satisfação, o Pai Natal saltou pela janela para dentro do quarto e sentou-se aos pés da cama de Charlie.</p>
<p>“Eu pensava que tu chegavas muito devagarinho e que não querias que nenhuma criança te visse” disse Charlie muito admirado.</p>
<p>“Pois” replicou o Pai Natal sorridente, “normalmente faço isso, mas esta noite quis vir directamente para aqui e falar contigo, Charlie.”</p>
<p>“&#8230; Mas sobre o quê?” perguntou Charlie muito excitado.</p>
<p>O Pai Natal alisou a barba, olhou para o rapaz e disse com um piscar de olhos:</p>
<p>“Bem, meu homenzinho, quando antigamente pelo Natal distribuía os meus presentes, ficava sempre com as minhas roupas vermelhas todas sujas de fuligem das chaminés por onde tinha que passar. No entanto, desde que tu estás na cidade e limpas as chaminés, as minhas roupas chegam ao fim do meu trabalho tão limpas como quando eu comecei; por isso pensei em passar aqui e agradecer-te.”</p>
<p>Charlie olhava fixamente para o Pai Natal com os olhos muito abertos. “Tu vieste para ME agradecer?”&#8230;.</p>
<p>“Sim, foi para isso que eu vim”, confirmou o Pai Natal, “e agora tenho ainda outra surpresa para ti. O que é que tu desejas mais do que tudo?”</p>
<p>“Bem, querido Pai Natal, se não for pedir muito”, disse Charlie timidamente, “então gostava muito de ter uns patins&#8230;”</p>
<p>“Desejo concedido”, disse o bem-disposto Pai Natal, e puxou do seu saco de presentes o par de patins de gelo mais bonito e reluzente que Charlie alguma vez tinha visto.</p>
<p>“Oh!”, gritou Charlie, “muito, muito obrigado querido Pai Natal, esta é a prenda mais maravilhosa que já recebi em toda a minha vida.”<br />
“Ainda tenho aqui mais alguma coisa”, disse o Pai Natal, chegando para perto do rapazinho um pacote embrulhado em papel colorido.</p>
<p>Charlie abriu o presente muito ansioso e encontrou lá dentro um casaco lindo e quentinho com um gorro de lã a condizer do qual pendia um pompom gigante. Além disto, ainda descobriu um cachecol e umas calças novas. Charlie estava tão emocionado que não conseguia dizer nada. Farrusco roçava-se por entre as botas do Pai Natal que olhou para baixo e sorriu.</p>
<p>“Eu também não me esqueci de ti, querido amigo” disse ele tirando um pacotinho do seu saco. “Aí tens um peixe e uma lata de natas, é um miminho de Natal, Farrusco.”</p>
<p>“Agora Charlie, tenho mesmo de me ir embora”, despediu-se o Pai Natal. “Ainda tenho muitas prendas por distribuir. Feliz Natal e mais uma vez obrigado por manteres as chaminés tão limpinhas.”</p>
<p>“Muito obrigado&#8230;”, conseguiu apenas responder Charlie, pois o simpático Pai Natal já tinha pulado de novo pela janela e desaparecido no meio dos flocos de neve. Charlie ainda não conseguia acreditar no que ali se tinha passado, embora os patins reluzentes, assim como a roupa nova, ali estivessem lado a lado em cima da cama. “Oh Farrusco”, exclamou ele, “mas que prenda tão linda!”</p>
<p>Farrusco ronronou parecendo estar totalmente de acordo, olhando para a lata das natas e para o peixe que o Pai Natal lhe tinha lá deixado. “Ainda é muito cedo para receberes a tua prenda, Farrusco!” explicou Charlie, pegando no pacotinho. “Isto é para amanhã, para o teu jantar de Natal”, e dizendo isto colocou o peixe e as natas no armário da arrecadação. “Agora temos que voltar a dormir, pois amanhã vamos ter um dia muito especial.”</p>
<p>Primeiro Charlie não adormecia de maneira nenhuma, porque não conseguia deixar de pensar no seu maravilhoso presente, mas por fim adormeceu profundamente e sonhou com toda a diversão que iria ter a andar de patins no lago gelado.</p>
<p>No dia de Natal, Charlie foi acordado pelas harmoniosas batidas do relógio da igreja. Saltou da cama e Farrusco cumprimentou-o com um miado esperançoso.</p>
<p>“Feliz Natal, Farrusco”, disse Charlie.</p>
<p>Farrusco miou mais uma vez, e olhou com desejo para o armário, onde estavam o peixe e as natas.</p>
<p>“Está bem”, consentiu Charlie risonho, “vou dar-te já. Também não faz mal nenhum se fizeres a tua refeição especial de Natal logo ao pequeno-almoço.”</p>
<p>Deu o presente ao gato, encheu uma tina com água quente e entrou lá para dentro. Enquanto tomava banho, cantou todas as músicas natalícias que conhecia de tão contente que estava naquela linda manhã de Natal.</p>
<p>Depois do banho, vestiu as suas roupas novas, pegou nos seus patins novos cintilantes e cheio de entusiasmo, correu todo o caminho para o lago.</p>
<p>Quando lá chegou, já lá estavam todas as outras crianças e Becky estava nesse momento a pôr os seus patins. “Feliz Natal, Becky”, cumprimentou-a Charlie quando chegou ao pé dela.</p>
<p>“Oh, és tu Charlie”; exclamou ela espantada. “ Feliz Natal. Não te tinha reconhecido nas tuas roupas novas&#8230; e também tens uns patins!” alegrou-se ela. “Agora já podes patinar comigo no lago.”</p>
<p>Enquanto Charlie atava os seus patins novos, ia contando a Becky a visita do Pai Natal. Quando acabou a sua história, Becky disse-lhe que estava muito feliz por ele. Entretanto os patins já estavam bem presos e Charlie estava preparado para a sua primeira tentativa.</p>
<p>“Agarra-te bem à minha mão”, sugeriu-lhe Becky, “porque no princípio talvez vá ser um bocadinho difícil para ti.”</p>
<p>Contudo, Charlie só esteve um bocadinho bambo das pernas e em pouco tempo já deslizava tão bem como todas as outras crianças.</p>
<p>Charlie e Becky estavam a divertir-se tanto, que não repararam como o tempo passou. De repente, Becky ouviu alguém chamar o seu nome. Eles olharam à sua volta e viram um senhor de pé na margem do lago, que lhes acenava.</p>
<p>“Ai meu Deus!” exclamou Becky. “Aquele é o meu pai e eu tinha prometido chegar hoje cedo a casa para comer, mas o tempo voou enquanto patinávamos.”</p>
<p>“Espero que agora o teu pai não esteja zangado” disse Charlie receoso.</p>
<p>“Não, não”, tranquilizou-o Becky, enquanto ambos se dirigiam para o seu pai. “Ele compreende. O meu pai é muito querido. A minha mãe também é muito simpática” assegurou-lhe a menina. “Ela não costuma ser tão brusca como foi há dias quando a viste pela primeira vez, Charlie. Só que às vezes ela enerva-se muito&#8230; eu penso que tem a ver com o meu irmão mais novo. Sabes, ele morreu e a mãe sente tantas saudades dele, que quando está triste diz coisas que não queria.”</p>
<p>“Eu entendo isso muito bem”, esclareceu Charlie com muita pena.</p>
<p>“Estou a ter uma ideia fantástica” disse Becky muito excitada. “Porque é que tu não vens passar este Natal connosco, Charlie? Aí podes ver por ti próprio como a mãe é uma pessoa maravilhosa.”</p>
<p>“Eu não posso fazer isso” gaguejou ele. “Eu só ia incomodar-vos.”</p>
<p>“Oh, por favor diz que sim, Charlie”, implorou ela. “Eu vou perguntar ao pai, mas de certeza que ele não tem nada contra.”</p>
<p>Chegaram então ao local onde o pai de Becky estava. “Olá Rebecca” disse o pai sorridente. “Estava aqui a pensar que hoje não querias o jantar de Natal!” Mas Becky sabia que ele só estava a brincar.</p>
<p>“Pai, este é o meu amigo Charlie”, disse Becky. “Ele pode ir passar o Natal connosco&#8230;? Sabes, ele não tem família e não pode celebrar o Natal com ninguém porque vive na padaria e…”</p>
<p>“Não vás tão depressa, senhorita”, pediu o pai de Becky com ar divertido. “Agora conta-me tudo outra vez, devagar, e pela ordem certa.”</p>
<p>Então Becky contou de novo a história de Charlie ao pai e quando acabou o pai sorriu. “Claro que podes vir comer connosco, Charlie, és muito bem-vindo. Mas agora vamos depressa, senão o peru ainda fica frio.” O pai de Becky levou os dois pela mão e apressaram-se todos a ir para casa.</p>
<p>Quando chegaram, Becky correu para o quarto para vestir o seu vestido mais bonito, enquanto o pai foi ter com a mãe para lhe dizer que Charlie iria ficar para o jantar. Enquanto isto se passava, Charlie esperava na sala.</p>
<p>Pouco depois, a mãe de Becky entrou na sala e quando ela se debruçou sobre ele e o apertou contra ela, Charlie viu que tinha lágrimas nos olhos. “Bem-vindo à nossa casa, Charlie” disse ela suavemente, “e Feliz Natal&#8230; Nenhuma criança deveria passar um Natal sozinha.”</p>
<p>Depois, pegou-lhe na mão e seguidos por Becky e pelo pai desta, entraram todos na sala de jantar mais bonita que Charlie alguma vez tinha visto.</p>
<p>Num dos cantos estava uma maravilhosa árvore de Natal enfeitada e quando Charlie a viu, estremeceu dizendo: “Eu não tenho prendas para ninguém, mas posso vir amanhã e limpar a chaminé de graça.”</p>
<p>“Não te preocupes com isso” disse-lhe a mãe de Becky, pondo-lhe o braço por cima dos ombros. “O teu sorriso é a melhor das prendas para nós.”</p>
<p>Logo a seguir sentaram-se todos à mesa, o pai de Becky trinchou o peru e comeram a melhor refeição que Charlie alguma vez tinha provado.</p>
<p>Depois da comida, desembrulharam os presentes que estavam debaixo da árvore.</p>
<p>“Eu quero partilhar as minhas prendas contigo, Charlie”, disse Becky “vá ajuda-me a abrir este pacote enorme!”</p>
<p>“O que é que tu dirias, Charlie, se te pedíssemos para ficares a viver aqui connosco para sempre?” perguntou ele. “Nós íamos ficar muito felizes. Terias um quarto só para ti e podias ir com a Becky para a escola. Nós gostaríamos muito de ter, de novo, um rapazinho na nossa família.”</p>
<p>Charlie ficou tão feliz que perdeu a voz.</p>
<p>Becky correu para a mãe e abraçou-a. “Oh mãe, obrigada!” gritou ela. “Estou tão contente.” Charlie, que tinha finalmente encontrado de novo a voz, perguntou: “O Farrusco também pode ficar?”</p>
<p>“Naturalmente. Até será engraçado termos um gato”, respondeu o pai de Becky bem-humorado.</p>
<p>“Mas eu tenho que continuar a limpar a padaria do padeiro Tibbs” afirmou Charlie. “Porque ele se calhar não encontra outra pessoa que lhe faça esse trabalho, e ele foi muito bom para mim quando eu não tinha ninguém.”</p>
<p>“Eu acho muito bonito da tua parte, não te teres esquecido do padeiro Tibbs”, disse o pai de Becky.</p>
<p>“É importante que conserves a confiança dos teus amigos.”</p>
<p>“Estou tão feliz de ter agora uma casa tão bonita” disse Charlie, agradecendo-lhes de todo o coração.</p>
<p>A mãe de Becky beijou-o e Charlie disse: “Talvez eu também vos possa trazer sorte!”</p>
<p>Todos riram alegremente. Lá fora as sombras tornavam-se maiores e a lua por cima das casas anunciava que chegava ao fim um dia de Natal perfeito.</p>
<p style="text-align:right;">Bruce Peardon<br />
<em>Charlie, o limpa-chaminés</em><br />
Estugarda, MFK Editora dos Artistas Pintores com a Boca e os Pés, 2002</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/prepararonatal.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/prepararonatal.wordpress.com/34/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/prepararonatal.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/prepararonatal.wordpress.com/34/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/prepararonatal.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/prepararonatal.wordpress.com/34/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/prepararonatal.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/prepararonatal.wordpress.com/34/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/prepararonatal.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/prepararonatal.wordpress.com/34/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/prepararonatal.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/prepararonatal.wordpress.com/34/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/prepararonatal.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/prepararonatal.wordpress.com/34/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=prepararonatal.wordpress.com&amp;blog=1641256&amp;post=34&amp;subd=prepararonatal&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Bom Natal, Pai Natal &#8211; J. J. Letria</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Nov 2008 12:49:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pnatal</dc:creator>
				<category><![CDATA[Natal]]></category>

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		<description><![CDATA[Não é nada fácil a vida de um Pai Natal. Se não acreditam, prestem atenção àquilo que vos vou contar. As peripécias são muitas e os azares ainda mais. É por isso que as minhas barbas estão cada vez mais brancas. Brancas da neve, que, em flocos, nelas vai pousando, mas também das preocupações que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=prepararonatal.wordpress.com&amp;blog=1641256&amp;post=30&amp;subd=prepararonatal&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não é nada fácil a vida de um Pai Natal. Se não acreditam, prestem atenção àquilo que vos vou contar. As peripécias são muitas e os azares ainda mais. É por isso que as minhas barbas estão cada vez mais brancas. Brancas da neve, que, em flocos, nelas vai pousando, mas também das preocupações que não me dão sossego. <span id="more-30"></span></p>
<p>Querem saber como é que se chega a Pai Natal? Então eu vou explicar-vos. Pode ser-se Pai Natal de muitas maneiras. Eu, por exemplo, não escolhi esta profissão. Foi ela que me escolheu, sim porque os ofícios também podem escolher as pessoas e não o contrário.</p>
<p>Durante muitos anos eu fui carteiro numa pequena cidade do Norte, onde a invernia durava mais de seis meses e onde a luz do sol era caprichosa e fazia muitas caretas antes de aparecer.</p>
<p>Toda a gente me conhecia e eu conhecia toda a gente. Nessa altura não me chamava Pai Natal e sim Thor, um nome comum nos países do norte da Europa, que tratam por tu o gelo, o frio e a solidão dos grandes espaços brancos onde só há renas e bonecos de neve com narizes feitos com cenouras geladas como estalactites.</p>
<p>As pessoas costumam gostar dos carteiros, sobretudo nas terras pequenas, porque eles, mesmo quando trazem más notícias, também são capazes de deixar uma palavra amiga e um abraço de consolo.</p>
<p>Vi nascer famílias inteiras. Vi desaparecer os mais velhos. Vi as crianças tornarem-se homens e mulheres e partirem para as cidades grandes em busca de trabalho. Vi coisas boas e más, alegres e tristes e, muito antes de ser Pai Natal, também vi o mal que as guerras podem fazer a quem quer viver em paz.</p>
<p>Como qualquer carteiro que gosta do seu ofício, eu acompanhava a vida das notícias que levava e que trazia. Uma lágrima de tristeza no rosto de quem as recebia dizia-me que podiam ser bem melhores do que eram. Um sorriso largo mostrava-me que elas tinham trazido felicidade a alguém. E eu estava sempre ao lado de quem sofria ou de quem ficava contente, sim porque os amigos são isso mesmo. São aqueles com quem se pode contar tanto nas horas boas como nas más.</p>
<p>— Thor, vê lá que notícias nos trazes hoje! — diziam-me, à passagem, as pessoas que moravam na pequena cidade de província, com casas de madeira, usando um tom que era de brincadeira, mas também de ameaça. Elas sabiam que eu não lia nem podia ler as cartas que lhes entregava, mas, no fundo, acreditavam que eu podia fazer alguma coisa para tornar mais agradáveis as notícias tristes e ainda mais alegres as notícias boas. Acho que é assim que os carteiros são vistos um pouco por toda a parte e eu não me importava que isso acontecesse comigo, até porque me dava a sensação de ter um poder que realmente não tinha. Acreditem que era uma sensação agradável, principalmente para um modesto carteiro cujo único poder era o de ler os endereços nos envelopes e de os entregar às pessoas certas sem demora.</p>
<p>Com a idade, comecei a sentir dores nas pernas e nas costas e o exercício matinal de andar vários quilómetros ao frio deixou de ser agradável e estimulante. Passei a caminhar mais lentamente e algumas pessoas começaram a protestar porque a entrega da correspondência se fazia cada vez mais tarde.</p>
<p>— Desculpem, mas melhor do que isto já não consigo fazer — lamentava-me eu, com pena de que o meu serviço estivesse a perder qualidade.</p>
<p>Houve mesmo pessoas que não eram da cidade, mas que para lá foram entretanto viver, que pediram ao chefe da estação de correios para me substituir, mas ele, que era meu amigo e que sabia como eu era estimado, sorriu e limitou-se a responder:</p>
<p>— Enquanto ele puder andar e quiser continuar a ser carteiro, o lugar é dele. Portanto, a sua substituição está fora de questão.</p>
<p>Fiquei-lhe agradecido por aquele gesto de amizade e de confiança, mas devo confessar que, a partir dessa altura, comecei a pensar em retirar-me para ter um fim de vida mais descansado. Mas retirar-me para fazer o quê? Para essa pergunta eu não encontrava resposta, mas ela acabou por surgir.</p>
<p>Ao longo da minha vida como carteiro conheci muita gente. Uma dessas pessoas era um simpático sapateiro chamado Andersen, que tinha ideias arejadas apesar de o seu ofício ser modesto. Era casado com uma senhora mais velha e recordo-me bem da alegria que o casal teve quando, num dia do princípio de Abril, lhes nasceu o único filho. Era uma criança pequena e muito metida consigo mesma. Quando ele nasceu, levei cartas para várias cidades e aldeias a dar a notícia da sua vinda ao mundo. Os pais, de tão felizes que estavam, queriam que familiares e amigos partilhassem a sua alegria. Ao menino foi dado o nome de Hans Christian e quando cresceu passei a contá-lo entre os meus amigos. Eu contava-lhe histórias e ele retribuía com outras que a mãe e o pai lhe contavam, e longe estava eu de imaginar que muitas dessas histórias, uma vez postas em livro, viriam depois a torná-lo famoso em todo o mundo.</p>
<p>— Não chores que ele qualquer dia volta — foram as únicas palavras que consegui dizer-lhe no dia em que o seu pai partiu para muito longe, para participar como soldado nas campanhas de Napoleão Bonaparte, um imperador francês que ele muito admirava.</p>
<p>O pai de Hans Christian nunca mais voltou, nem as histórias que ele contava ao filho ao adormecer. Durante muito tempo ele deixou de querer saber se chegavam ou não cartas de longe com notícias frescas e boas. Ninguém mais lhe poderia dar a notícia pela qual ele ansiava: a do regresso de seu pai. Um dia vi Hans Christian de malas feitas para partir e perguntei-lhe:</p>
<p>— Para onde vais, rapaz? Se tu partires, a quem vou eu contar as minhas histórias de carteiro velho?</p>
<p>— Vou para Copenhaga. Quero ser cantor, bailarino, actor, talvez mesmo escritor. Tu qualquer dia também vais fazer grandes viagens, como as personagens das histórias de que ambos gostamos tanto.</p>
<p>— Mas eu não passo de um pobre carteiro à beira da reforma —respondi-lhe eu.</p>
<p>— Mas nada te obriga a teres este ofício até ao fim dos teus dias. Qualquer dia tens uma grande surpresa — disse-me Hans Christian, enquanto subia para a carruagem que o levaria até à capital, para ser famoso e rico.</p>
<p>Fiquei a pensar na surpresa de que ele me falou com um sorriso matreiro no rosto magro e pálido, mas, mesmo puxando pela imaginação, não consegui descobrir qual poderia ser.</p>
<p>Nas semanas que se seguiram senti saudades de Hans Christian e das histórias que, fora das horas do meu serviço, contávamos um ao outro, dando asas aos sonhos que fazem voar as histórias e as lendas por cima das fronteiras que separam os países e os homens. Ele fez-me muita falta, porque, sem a sua presença, eu sentia-me mais velho, mais cansado e menos capaz de cumprir a minha função de carteiro. As ruas eram agora mais compridas, havia mais casas, rostos novos e eu já não era capaz de conhecer toda a gente, como nos velhos tempos da juventude. Entristecia um pouco mais todos os dias, ansioso por que chegasse a reforma e, ao mesmo tempo, com a esperança de que ela tardasse o mais possível. Afastado do meu trabalho, eu iria sentir-me inútil e abandonado.<br />
Às vezes as crianças, ao verem-me passar, diziam-me:</p>
<p>— Em vez de cartas cheias de gatafunhos, bem podias trazer-nos um presente bonito, mesmo que não seja Natal.</p>
<p>Foi nessa altura que comecei a receber cartas de muito longe. Primeiro de Itália, depois de Espanha e de Portugal. Era Hans Christian quem as mandava e em todas elas me dava conta dos seus êxitos literários. Os seus livros eram agora lidos em muitos países e as suas histórias contadas a crianças de todo o mundo. Nem podia imaginar a alegria que o seu triunfo me dava. Numa dessas dessas cartas ele fazia-me um anúncio estranho e ao mesmo tempo agradável: “Prepara-te, Thor, porque dentro de pouco tempo vais receber a visita de uma grande amiga minha que te levará boas notícias”.</p>
<p>Todos os dias eu ficava à espera dessa visita que tardava a chegar. Mas, como sabia que Hans Christian não era pessoa para mentir, não desisti de a ver chegar à porta da minha pequena casa de madeira, onde as crianças da cidade me vinham pedir que lhes contasse histórias e saber se eu tinha presentes para lhes entregar.</p>
<p>Os grandes frios de Inverno deixavam-me cada vez mais abatido e com menos vontade de distribuir correspondência de rua em rua, de casa em casa. Um dia adoeci com gravidade e os meus amigos disseram-me:</p>
<p>— É tempo de parares. A partir de agora alguém mais jovem se ocupará da tua tarefa. Tens direito a descansar e a passear pelas ruas e pelas praças sem a obrigação de entregares cartas e encomendas. As pessoas vão sentir saudades tuas, mas podem vir visitar-te a casa.</p>
<p>Deitando contas à minha pobre vida, que assim se aproximava do fim, nem me apercebi da presença, junto à minha cabeceira de doente, de uma rapariga de vestido branco e olhos verdes, que parecia ter luz própria, como uma estrela ou uma fogueira nocturna. Quis saber quem era e o que fazia ali.</p>
<p>— Diz-me o teu nome e o que fazes aqui?</p>
<p>— Não te assustes, porque são boas as razões que me trazem à tua casa. Suponho que Hans Christian, nosso amigo comum, te terá falado em mim.</p>
<p>— Ah, então és tu a surpresa de que ele me falava com tanto mistério — exclamei, satisfeito e intrigado.</p>
<p>— Não sei se sou ou não uma surpresa, mas sou, pelo menos, uma amiga que te vem ajudar — disse ela.</p>
<p>— E posso ao menos saber o teu nome, ou será que não o podes dizer a um pobre carteiro que deixou de entregar cartas e que vê a sua vida a aproximar-se do fim?</p>
<p>— Claro que podes saber o meu nome. Eu sou a Fada do Inverno e venho propor-te um outro ofício que, sendo parecido com o que tiveste durante tantos anos, acaba, afinal, por ser muito diferente.</p>
<p>— E será que posso saber qual é esse ofício que agora me propões? — quis eu saber, já cansado de tanto mistério.</p>
<p>— Venho propor-te que te tornes Pai Natal — esclareceu a fada — e, por aquilo que sei de ti e pelo que sei que as crianças sentem a teu respeito, acho que vais gostar muito do teu novo trabalho.</p>
<p>— Mas eu — respondi, balbuciando com a comoção — não sei o que é preciso fazer para se ser Pai Natal e, para além disso, estou com muito poucas forças e a saúde muito fraca. Acho mesmo que estou velho de mais para aquilo que me propões.</p>
<p>— Não deves preocupar-te com nada disso — explicou ela — porque, a partir de hoje, vais ter uma saúde de ferro e a idade vai deixar de contar para ti. Em vez de contares os dias, vais contar os natais e ficarás sempre com a mesma idade, porque um Pai Natal não pode ser mais novo nem mais velho do que tu. Tem que ter sempre a mesma idade e o mesmo aspecto.</p>
<p>Confesso que a ideia me agradou bastante, mas não me atrevi a acreditar que nada daquilo fosse verdade. Eu devia estar a delirar com a febre e a Fada do Inverno não devia passar de uma alucinação.</p>
<p>Foi então que a fada, pegando-me na mão, me levantou da cama e me levou até à janela para ver, cá fora, na rua, a parte mais importante da surpresa.</p>
<p>— Vais fechar os olhos — disse-me — e, quando eu acabar de contar até dez, vais abri-los e ver o que está parado à tua porta.</p>
<p>Fiz exactamente como ela disse e, ao abrir os olhos, deparei com um lindo trenó, puxado por quatro parelhas de renas.</p>
<p>— Gostas? — perguntou ela.</p>
<p>— Claro que gosto — exclamei — mas não acredito que seja para mim e que vá ser eu a viajar nele.</p>
<p>— Pois podes acreditar no que vês. A partir de agora serás tu a conduzir aquele trenó e a levar, em Dezembro, presentes a crianças de muitos países. Claro que vais receber muitas cartas e ter que as ler para saber o que querem, de onde são e em que medida podes ou não satisfazer os seus pedidos. Mas é mesmo essa a função de um Pai Natal, e não é muito diferente daquilo que fazias quando eras carteiro. Apenas terás que viajar mais e não te poderás limitar a entregar encomendas.</p>
<p>Ouvi atentamente todas as palavras da fada e comecei logo a fazer projectos quanto à forma de realizar da melhor maneira o meu novo trabalho.</p>
<p>Dividido entre o sonho e a realidade, senti que ela me tocava na testa com a varinha de condão e que, ao fazê-lo, se desfazia num clarão, desaparecendo do meu quarto sem sequer me dizer adeus. Eu era agora um Pai Natal a sério, com roupa de macia flanela vermelha, gorro da mesma cor com uma borla branca na ponta e com barbas ainda mais compridas do que as que habitualmente usava. Nesse instante deixei também de sentir dores nas pernas e nas costas e a fraqueza que me levara à cama transformara-se num vigor e num bem-estar imensos. Eu nunca me sentira tão bem na minha vida. Tornara-me Pai Natal e não ia ter mãos a medir. Quis agradecer ao meu amigo Hans Christian, mas não sabia a sua morada, nem o seu paradeiro, já que ele andava agora por todo o mundo a visitar cidades, escritores seus amigos e a ver os seus livros traduzidos noutras línguas nas montras das maiores livrarias.</p>
<p>Falando com os meus botões, prometi: “No próximo Natal vou deixar-lhe um presente na chaminé”. Alguém havia de me dar a sua morada.</p>
<p>No começo tudo foi agradável e entusiasmante, até por ser novidade. Eu gostava muito daquilo que fazia e não havia pedido que não satisfizesse, mesmo que não fosse fácil de atender. E muitos não eram.</p>
<p>Ao longo do ano chegavam-me cartas e postais de todo o mundo. Alguns até traziam desenhos bonitos, feitos a várias cores. Outros vinham escritos com uma letra miudinha e cheia de hesitações. Às vezes eu levava horas a tentar decifrar os pedidos que as crianças me faziam. Tive que aprender várias línguas e arranjar óculos com lentes mais fortes. Senti a tentação de satisfazer primeiro os pedidos das crianças da minha cidade, mas não caí nela. Os pedidos eram satisfeitos pela ordem de chegada e primeiro estavam sempre os meninos e as meninas que, ao longo do ano, pouco ou nada tinham recebido. Era uma questão de justiça e eu, se já tinha sido justo como carteiro, agora tinha de o ser ainda mais como Pai Natal.</p>
<p>Vi, cá de cima, o mundo a transformar-se: as cidades a crescerem, as populações a aumentarem e a movimentarem-se de uns países e de uns continentes para os outros, as fábricas a aparecerem e a encherem os céus de fumo espesso e escuro, as pessoas a andarem cada vez mais depressa.</p>
<p>— Isto nunca esteve tão mal — lamentavam-se os velhos.</p>
<p>— Eu gosto de ser criança e tenho vontade de ser feliz — diziam-me os mais pequenos.</p>
<p>Tive que perguntar aos gnomos que me ajudavam e que estavam mais atentos às pequenas e às grandes coisas da terra os nomes de estranhos objectos metálicos que eu observava cá em baixo em movimento, e eles responderam-me: “São os automóveis, os autocarros e os comboios, os aviões e os navios”. Eu nunca percebi verdadeiramente para que servia tudo aquilo, porque os meus problemas de deslocação resolviam-se com um simples e rápido trenó. Mas eu sou um Pai Natal e as pessoas como eu não devem andar de carro ou de comboio, ou, pelo menos, ninguém espera que andem, para que não se estrague a magia das histórias que ajudam a sonhar.</p>
<p>Os meus maiores problemas foram sempre com os objectos voadores, primeiro com os aviões e mais recentemente com as naves espaciais. Já estive em vias de chocar com alguns e só por milagre isso não aconteceu. Há uns anos, depois de ter evitado à justa a colisão com um avião gigantesco que voava para a Austrália, para a terra dos meus amigos cangurus, ainda ouvi um insulto (digo que era um insulto pelo tom e não porque saiba o significado da palavra) que ainda hoje me dá que pensar:</p>
<p>— “Desaparece da minha frente, ovni de uma figa”! — gritou o comandante furibundo, com os olhos a faiscarem de raiva. E eu, como era Natal, nem lhe pude responder, senão ainda lhe teria dito:</p>
<p>— Ovni és tu, meu azelha dos céus. Vai mas é arrumar essa banheira de lata pintada na garagem da tua avó. Ovni é a tua prima!</p>
<p>Mas achei de bom tom ficar calado e seguir viagem. É isso que se espera de um Pai Natal, e foi precisamente isso que eu fiz. Era só o que faltava: eu envolvido numa discussão de trânsito!</p>
<p>O que mais me tem custado em todos estes anos que levo de ofício e que já não têm conta, porque eu, depois da minha conversa com a Fada do Inverno, também perdi a conta aos anos que tenho de idade, é ver os estragos que as guerras provocam às pessoas e às casas. Até me arrepio quando falo nisto, mesmo não vos contando as coisas terríveis que já vi. Um Pai Natal não pode contar tudo aquilo que vê.</p>
<p>Não me chegam os dedos das mãos para contar os natais em que fiquei sem entregar presentes. Levei o meu trenó o mais longe que pude, até perto das casas dos meninos que me tinham escrito cartas e postais, mas, na maior parte das vezes, não os encontrei. Tinham deixado de morar ali, tinham sido levados para campos longínquos onde as pessoas são tratadas como bichos e alguns nunca mais puderam regressar às suas casas. Guardei os seus presentes no meu sótão iluminado, sempre à espera de dias melhores e mais pacíficos. Mas esses dias, quando finalmente chegaram, já estavam fora de tempo. Muitas vezes chorei sobre as cidades destruídas e incendiadas pela guerra e ouvi as minhas renas a perguntarem-me:</p>
<p>— Porque choras, Pai Natal?</p>
<p>— Por nada, é do nevoeiro e do fumo que sai das chaminés das fábricas — respondi eu com pouca convicção, mas elas perceberam que eu não estava a falar verdade.</p>
<p>Ninguém tem tanta sensibilidade como os animais para perceber se estamos ou não a sofrer. As renas conhecem-me há tantos, tantos anos que, mal eu começo a fungar, sabem logo que é uma grande tristeza a tomar conta de mim.</p>
<p>— Quando ele está assim triste, o melhor é deixá-lo ficar em paz com os seus pensamentos — costuma ser este o comentário das renas.</p>
<p>Mas eu não lhes menti inteiramente quando falei no fumo das fábricas. É mesmo verdade. Cada vez mais andam no ar fumos esquisitos e irritantes, dos que fazem chorar, dos que fazem espirrar e dos que nos deixam cheios de comichões na pele. Para dizer a verdade, eu acho que as pessoas cada vez têm menos respeito umas pelas outras, e, quando o respeito falta, tudo se torna possível. Por isso, os meus ouvidos andam cansados de ouvir tantas queixas, das crianças, dos pássaros, dos peixes, das árvores e dos rios. Há meses até recebi uma carta de um colibri a pedir-me uma máscara contra os fumos de uma grande fábrica que construíram perto do seu ninho. Claro que não pude satisfazer o pedido, primeiro porque não costumo dar máscaras anti-poluição e depois porque não existem nenhumas feitas à medida dos pássaros, sobretudo quando são pequeninos como os colibris.</p>
<p>Mas os pedidos estranhos não se ficam por aqui. Antigamente pediam-me ursos de peluche, carros de bombeiros feitos de lata, marionetas e bonecas de pano. Agora pedem-me coisas muito diferentes: jogos de computador, carros telecomandados, leitores de CDs.</p>
<p>Confesso que tenho feito um grande esforço para me manter actualizado. Leio livros, jornais, folhetos explicativos e muita outra papelada. Por aí vejo as voltas que o mundo deu.</p>
<p>No tempo em que eu contava histórias a Hans Christian e ele mas contava a mim, nada disto existia. Era tudo mais simples e menos confuso. Não quero dizer que fosse melhor nem pior.<br />
Acho apenas que era diferente, muito diferente. Eu sei que o mundo não pára e que tudo se transforma. Mas também sei, mesmo sem querer armar-me em filósofo de trazer por casa, que há coisas que as pessoas não podem nunca perder: o gosto de conversar, de estar com as outras pessoas, de ouvir e de contar histórias, de olhar para o céu e para o mar, nem que seja para contar estrelas ou ondas.</p>
<p>Aqui, o velho Thor às vezes interroga-se: “Será que os presentes que eu entreguei ao longo da minha vida fizeram bem aos meninos e às meninas que os receberam? Será que não ficaram mais mesquinhos e gananciosos por terem presentes a mais?”</p>
<p>Ainda não consegui e se calhar nunca conseguirei encontrar respostas para estas perguntas, mas não faz mal. Às vezes, as perguntas são muito mais importantes que as respostas, porque nos fazem pensar e nos ajudam a fazer pensar os outros. Ainda há pouco abri uma carta vinda não sei bem de onde e, lendo o segundo parágrafo, vi que uma menina chamada Bárbara me pedia um telemóvel para poder falar a qualquer hora do dia com os primos que estão emigrados no Canadá. Vou ver se não me esqueço de satisfazer o pedido da Bárbara, porque é para isso que um Pai Natal existe, mas, sinceramente, preferia que ela me tivesse pedido um livro de lendas ou uma boneca. Se calhar, são manias que eu tenho.</p>
<p>— Pai Natal, este ano tens que me trazer uma televisão gigante para eu ver o que se passa no mundo. Quando o ecrã é grande até as guerras são um espectáculo! — disse-me na semana passada, à passagem por uma aldeia de montanha, um miúdo de cabelos negros e olhos muito vivos, e eu respondi-lhe:</p>
<p>— Em vez da televisão, este ano vou oferecer-te um livro muito bonito. Não leves a mal, mas presentes desse tamanho já não cabem no meu trenó.</p>
<p>Eu sei que, às vezes, me torno um desmancha-prazeres, mas prefiro dizer o que penso e o que sinto. Quanto a dar televisões de presente, prefiro fazer outras escolhas. Não tenho nada contra a televisão, mas, como sou do tempo em que ela ainda não tinha sido inventada, tenho saudades das noites e dos dias em que havia paciência para sonhar e para inventar histórias. Pode ser que eu esteja a ver mal as coisas, mas, se aqui estivesse o meu amigo Hans Christian, era bem capaz de me dar razão.</p>
<p>Embora todos ou quase todos sonhem com o Pai Natal quando são pequenos, eu gostava de vos dizer que o Pai Natal também tem sonhos e gosta muito de sonhar. De resto, eu não sei mesmo o que seria a vida de um Pai Natal se não fossem os sonhos que o acompanham por toda a parte.</p>
<p>Ainda esta noite tive um sonho. Sonhei que recebia a minha própria visita. Eu estava a dormir, ainda menino, na minha terra fria do Norte, e de repente bateram à porta e era eu que vinha entregar um presente a mim mesmo.</p>
<p>Como vocês sabem, nos sonhos tudo, ou quase tudo, é possível, até sonharmos que recebemos a nossa própria visita. Olhei para aquela cara e confesso que ela não me pareceu nada estranha. Era eu menino a olhar para mim já velho e a sentir simpatia por aquele homem de barbas compridas e brancas que me trazia um presente de muito longe e de um sítio secreto no fundo da noite. Sentei-me na cama e tentei tocar-lhe nas barbas, mas, como sempre acontece nos sonhos, senti que tinha os movimentos presos, que não conseguia sequer mexer um músculo, que estava mais rígido que um pedaço de granito numa montanha. Sentei-me na cama e perguntei-lhe:</p>
<p>— Que presente me trazes?</p>
<p>— Trago-te um trenó pequenino para tu poderes viajar nele quando tiveres a minha idade — respondeu-me o Pai Natal.</p>
<p>— Mas quem foi que te disse que eu ia querer um trenó para usar quando tiver a tua idade? — perguntei eu, em tom de menino esperto e inquiridor.</p>
<p>— Ninguém me disse, fui eu que adivinhei. Eu sei que quando tiveres a minha idade, barbas tão compridas como as minhas e este ar cansado e errante com que hoje me vês, vais precisar de um trenó como aquele que agora te ofereço, só que muito maior e com renas verdadeiras.</p>
<p>— Mas como podes tu saber a meu respeito coisas que eu nem sou capaz de imaginar?</p>
<p>— Se calhar é a vantagem de ser Pai Natal. Mas eu vou tentar satisfazer a tua curiosidade. Esta madrugada, antes de vir bater à tua porta, eu passei pela casa de um outro menino chamado Hans Christian, que me pediu para não me esquecer de ti nesta noite de todos os presentes e de todos os afectos. E foi isso que eu fiz. Vim até à tua casa para te oferecer este pequeno trenó. Sempre que olhares para ele, hás-de lembrar-te de mim e hás-de lembrar-te daquilo que irás ser quando tiveres a minha idade.</p>
<p>Olhei, em sonhos, ainda com a idade de ser um menino, para aquele Pai Natal que era eu com os anos que hoje tenho, e senti uma grande ternura. Não por mim, mas por todos aqueles a quem consigo dar um pouco de alegria com o recheio mágico do meu saco iluminado.</p>
<p>E pronto, tinha chegado o momento de acabar o sonho. Eu ia fechar os olhos, mergulhar numa escuridão profunda e preparar-me para ser apenas aquilo que sou nesta história que hoje vos conto na primeira pessoa: um Pai Natal vindo das terras geladas e brancas do Norte, cheio de coisas para contar e de presentes para entregar.</p>
<p>Agora eu pergunto: será que é real o que vos estou a contar nesta história? Será que há histórias verdadeiras? Será que um Pai Natal, mesmo quando conta a sua própria história, não é sempre uma figura mágica, nascida da imaginação de quem já foi menino e de quem, sendo menino, recebeu, na altura certa, os presentes da alegria e da saudade de ser menino? Podem ter a certeza que não vou dar resposta a nenhuma destas perguntas. Porque não quero e porque não sei. Um Pai Natal é muito mais interessante quando pergunta do que quando responde. E eu gosto muito de ser perguntador. Gosto de perguntar qual é o melhor caminho para chegar mais perto daqueles de quem gosto. Gosto de perguntar qual é a morada das estrelas que me iluminam o caminho. Gosto de perguntar onde começa e acaba o sonho dos meninos que me inventam em cada noite de Consoada.<br />
Agora estou acordado outra vez, e ainda tenho muito para viajar e outro tanto para contar. Sigo o fio de luz deixado por um cometa que atravessa a noite em direcção a lado nenhum. É seguindo estes rastos que eu encontro sempre o caminho que me leva até ao fim das histórias e até à casa de cada um de vós. Porque vocês me inventam e porque eu, ao saber-me inventado, também me sei amado como só os pais, os avós e os grandes amigos podem ser. E, dito isto, só não vos entrego já o presente que trouxe para vos dar, porque isso só pode acontecer no fim da história, e eu ainda tenho um longo caminho a percorrer até lá chegar. Endireito as costas no assento do meu velho trenó e parto para um outro capítulo.</p>
<p>— Vamos fazer-nos outra vez ao caminho, Pai Natal. Estávamos a ver que nunca mais acordavas! — desabafou uma das renas.</p>
<p>— Atchim! Atchim! — desculpem lá o mau jeito, mas agora passo os dias a espirrar. Nunca sei se é Verão ou se é Inverno, se é Primavera ou se é Outono. As estações do ano andam todas trocadas. Visto o meu casacão de flanela e faz um calor abrasador. Fico em mangas de camisa e sinto um frio de rachar. Vá lá um Pai Natal orientar-se no meio destas mudanças de temperatura!</p>
<p>A constipação que agora me anda a incomodar apanhei-a há dias quando me saltou um esqui do trenó e passei ao relento mais de duas horas a repará-lo. Quando cheguei a casa os gnomos que me ajudam notaram que eu tinha o nariz a pingar e os olhos muito vermelhos.</p>
<p>— O Pai Natal vai ficar de cama e não pode entregar os presentes — disse-me Adónio, o mais esperto e espevitado de todos eles.</p>
<p>Mas eu não me deixei assustar com a perspectiva de ficar de cama. Fui ao armário dos segredos antigos buscar um xarope feito a partir de uma receita da minha avó e hoje já estou bastante melhor. Não tenho medo de morrer com uma constipação, o que não quero é faltar ao encontro com os meus amigos de todo o mundo na noite de Natal.</p>
<p>O que me está a preocupar é o mau estado em que tenho o trenó. Os esquis estão desengonçados e as renas, coitadas, cada vez têm que fazer mais esforço para o puxar através das longas e sempre engarrafadas avenidas do céu. Eu bem apito, bem sacudo os guizos e os chocalhos, mas ninguém se afasta para me deixar passar. Estão todos muito ocupados a pensar nas suas vidinhas.<br />
Um grupo de amigos meus do País dos Sonhos Azuis decidiu escrever uma longa carta aos governos de vários países, pedindo para me ser dado um trenó novo. Mas as respostas que receberam eram quase todas iguais: “O orçamento deste ano não prevê despesas supérfluas”; “as nossas disponibilidades financeiras estão esgotadas com a compra de dois novos porta-aviões”; “lamentamos informar que a resposta será negativa, mas a verdade é que temos outras prioridades para respeitar”; “porque não tentam uma fundação ou uma empresa de brinquedos? A nossa função não é dar subsídios ao Pai Natal”.</p>
<p>Tudo isto é bem capaz de ser verdade, mas também é verdade que quem escreveu estas cartas de resposta gostou sempre, quando era pequeno, de receber as minhas visitas na noite da Consoada. Ai, meus amigos, quem manda às vezes tem a memória curta e esquece-se de que um dia já foi pequeno.</p>
<p>Por isso eu vos disse, no começo desta minha história, que tenho passado por muitas peripécias e também por muitos azares. O maior de todos os azares aconteceu-me há dias. Ia eu todo satisfeito a sacudir as rédeas do meu trenó, quando senti que o tapete fofo das nuvens me fugia debaixo dos pés. Senti que me afundava e que, a cair daquela maneira, talvez não tivesse salvação. Foi então que, pela primeira vez em tantos anos, pedi a ajuda da Fada do Inverno que não tardou em vir em meu auxílio. Vi-a chegar em voo picado, de varinha de condão em riste, no meio de um enorme clarão, e achei-a tão bonita e tão luminosa como na primeira luz em que nos encontrámos, quando eu dava os primeiros passos no meu novo ofício.</p>
<p>— Pronto — gritou-me ela — ainda não é desta que vais deixar de ser Pai Natal!</p>
<p>— Obrigado, Fada do Inverno, pela tua ajuda, mas será que posso saber o que me aconteceu? — perguntei eu, cheio de curiosidade de saber como tudo aquilo tinha acontecido.</p>
<p>— Meu querido Pai Natal — esclareceu-me ela com a sua voz doce e bonita — o que aconteceu foi que caíste no buraco do ozono, que é uma das últimas maldades que os homens conseguiram fazer a este pobre planeta.</p>
<p>— Mas o que é o buraco do ozono? — quis eu saber, de tão desnorteado que estava com a prolongada queda.</p>
<p>— É o resultado de todos os males que os homens têm feito à atmosfera, usando e abusando de “sprays” e de outros produtos químicos que poluem e estragam. Quanto mais o buraco do ozono se alargar, piores serão os efeitos do sol sobre a pele dos seres humanos, sobre as culturas e no próprio clima.</p>
<p>Esclarecido, mas preocupado, ajeitei a minha amarrotada fatiota e fiquei a saber que existe mais um problema que todos vamos ter que resolver: o do buraco do ozono. Era só o que nos faltava!</p>
<p>Está a aproximar-se a grande noite da distribuição dos presentes e eu, como sempre acontece, encarrego-me pessoalmente de verificar se tudo está em ordem: os endereços, os laços nos embrulhos e as mensagens nos cartões que acompanham cada pacote. Nunca deixei essa tarefa em mãos alheias, porque um Pai Natal tem que ser cuidadoso com todas as etapas por que passa o seu trabalho.</p>
<p>Batem-me à porta e vou abrir. Quem me procura é um senhor de idade, muito pálido e magro, vestindo roupas escuras de um século anterior àquele em que eu nasci. Traz um velho cavalo preso pela rédea e parece estar muito cansado.</p>
<p>— Eu sou aquele que nunca teve Natal — diz-me — e venho aqui pedir-vos um grande favor.</p>
<p>— Faça favor de dizer — respondo-lhe, surpreendido com tão inesperada visita.</p>
<p>— Quero pedir-lhe que, neste Natal, junte a cada um dos presentes que entregar um saquinho de sonhos e de mistérios. É que os homens esqueceram-se de como se sonha e isso tornou-os muito mais tristonhos e carrancudos, tal como eu.</p>
<p>— Com certeza que vou satisfazer o seu pedido, embora não saiba onde posso encontrar esses saquinhos de sonho e mistério.</p>
<p>— Essa é a parte mais fácil de tudo isto — respondeu o homem — porque eu trago nos alforges do meu cavalo centenas de sacos desses. Têm dentro um pó luminoso de magia e algumas sílabas encantadas que só se usam nas palavras das fadas e dos adivinhos.</p>
<p>— Venham os saquinhos — propus eu — e logo me encarregarei de os distribuir.</p>
<p>— Nunca pensei que um homem que nunca tem Natal desse com a minha morada — comentei.</p>
<p>— Não foi difícil, Senhor Pai Natal, porque nós agora pertencemos ao mesmo mundo, que é o do sonho e da fantasia. Dar com a sua casa foi tão simples como sonhar. Fechei os olhos, pensei que tinha esse desejo e, quando os abri, estava aqui a bater à porta. Nada mais simples.</p>
<p>Ainda quis convidá-lo para beber um chazinho de tília, mas ele já estava de partida com a sua montada, a caminho de qualquer lugar que eu nunca serei capaz de encontrar no mapa.<br />
Fechei os olhos e adormeci, exausto de tantas peripécias e visitas inesperadas. Logo à noite vou mais uma vez distribuir presentes de Natal às crianças de todo o mundo, no meu velho e esvoaçante trenó. E só espero que a protecção da Fada do Inverno, a quem devo o ofício que hoje tenho, me impeça de cair de novo no buraco do ozono.</p>
<p>O velho cavaleiro que nunca teve Natal já deve estar muito, muito longe. As minhas renas começam a ficar impacientes com a proximidade da grande viagem através dos céus da noite. “Calma, meninas, que vai ser só mais uma viagem para entregar presentes. Não fiquem nervosas. Vão ter uma boa recompensa de erva fresca, cenouras e açúcar e muito tempo para descansar”, digo-lhes num tom calmo e afectuoso. Toca o telefone e eu atendo. Do outro lado está Hans Christian, que me diz:</p>
<p>— Quero desejar-te um bom Natal e pedir-te que nunca te esqueças desta noite. Ainda vou precisar de ti para entrares em muitas das minhas histórias.</p>
<p>— Obrigado, Hans Christian — respondo. — Desejo que tenhas também uma boa noite de Natal. Quanto às histórias, podes contar comigo. Logo à noite passarei pela tua casa para te deixar uma lembrança. Quando ouvires os guizos das renas, já sabes que sou eu que estou a chegar.</p>
<p>José Jorge Letria<br />
<em>Bom Natal, Pai Natal</em><br />
Porto, Edinter, 1996</p>
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		<title>O caminho para Belém</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Nov 2008 11:53:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pnatal</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Joaquim e Cristina têm uma avó bastante idosa e que já vê muito pouco. Em contrapartida, sabe dar ordens como um general e contar histórias como um marinheiro viajado. Não admira, pois o avô, já lá vão mais de cem anos, andara no mar e trazia para casa barcos carregadinhos de histórias. Até se diz [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=prepararonatal.wordpress.com&amp;blog=1641256&amp;post=26&amp;subd=prepararonatal&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Joaquim e Cristina têm uma avó bastante idosa e que já vê muito pouco. Em contrapartida, sabe dar ordens como um general e contar histórias como um marinheiro viajado. Não admira, pois o avô, já lá vão mais de cem anos, andara no mar e trazia para casa barcos carregadinhos de histórias. Até se diz que certa vez chegou a ter a bordo Napoleão, o imperador dos franceses.</p>
<p>É na estação do ano em que os dias começam a ficar mais pequenos e em que tudo, tanto a Natureza como os homens, se prepara para o Natal, que a avó melhor conta histórias. Mas melhor ainda nos domingos do Advento. É sempre divertido estar em casa dela, mas nunca como no primeiro domingo do Advento.</p>
<p>Cristina e Joaquim vão visitá-la por essa altura e os três bebem chocolate quente e provam as primeiras bolachas de noz. Mal têm acabado de comer e já a avó está a dar ordens. É o que faz todos os anos no primeiro domingo do Advento, e os dois irmãos já sabem há muito o que aí vem:</p>
<p>— As bolachas estavam boas, meninos? Então, agora vamos ao trabalho!</p>
<p>— Mas, avó — diz Joaquim — isto não é um trabalho, é um prazer.</p>
<p>Joaquim foi incumbido de ir buscar uns caixotes ao sótão.<span id="more-26"></span></p>
<p>— Às suas ordens, senhor General! — diz Joaquim arregaçando as mangas, pois sabe que vai transpirar. Os caixotes estão cheios de maravilhosas figuras talhadas muito antigas em madeira. Todos os anos, no primeiro domingo do Advento, começa a fazer-se, em casa de Anai, um grande presépio para o Natal. Nunca é cedo demais para começar, porque é um trabalho diversificado. Tem de construir-se o cenário, o prado dos pastores, a cidade de Belém com a hospedaria, os caminhos e as estradas, jardins, um lago, campos e montanhas e bosques. E é naquela pequena simulação de mundo que se colocam as figuras coloridas de madeira: cento e catorze figuras. Anjos, pastores, caminhantes, animais nos prados, no estábulo e em liberdade, os reis do Oriente com o seu séquito, soldados romanos que, ao tempo do nascimento de Jesus ocupavam a Terra Santa, vagabundos que iam de viagem por aquela altura, e muitos mais. Afinal Belém também tinha habitantes. Em resumo, grandes e pequenos, novos e velhos, todos têm de lá estar. E não pode faltar a Sagrada Família, claro. É isto tudo o que está nos caixotes que Joaquim tem de ir buscar ao sótão.</p>
<p>Mas também há ordens para a irmã:</p>
<p>— Tu, Cristina, vais à cozinha buscar o cesto das caixas de musgo, as pedrinhas, os ramos, a areia.</p>
<p>Todos os anos, os irmãos têm de recolher tudo isto para o cenário bíblico. Também há raízes e ramos com formas originais. Enquanto Cristina e a avó separam e preparam as coisas para erguer o cenário, Joaquim desce as escadas do sótão com passos pesados. Quando acabou de trazer tudo, empurram a grande mesa de para um canto livre da sala. A mesa é do tempo do trisavô deles, por isso é que é tão grande. Hoje em dia, já quase não há mesas como aquela. Vai servir de palco ao grande presépio mudo mas, antes de começarem, ainda têm de deitar mais chocolate na chávena da avó. Se fosse ela a deitar, podia vertê-lo em cima da toalha branca, porque já vê mal. Talvez tenha sido por isso que se habituou a dar ordens secas e curtas para que tudo decorra como ela imaginou. Como o presépio tem tantas peças, haveria muita confusão. Cada ano, ele tem de ficar um pouco diferente do dos anos anteriores e por isso os irmãos têm de prestar muita atenção ao que a avó idealizou para aquele ano. Ela dá as indicações e as crianças executam-nas:</p>
<p>— Primeiro o cenário, meninos: um monte no meio, atrás, o campo dos pastores; à frente, a cidade de Belém com as casas e as ruas…</p>
<p>E devem colocar-se logo as primeiras figuras, claro, pois um cenário sem pessoas mais pareceria um cenário lunar. Mas, no primeiro domingo do Advento, apenas podem colocar-se as personagens mais afastadas, as que vinham de longe para Belém. A avó conhece cada uma das figuras do tempo em que ainda podia vê- las. Sabe até a história da vida de cada uma delas e dentro em pouco chegará o momento de ela se mostrar uma grande contadora de histórias. A avó sempre imaginava tudo com uma tal precisão, que, na sua cabeça, as coisas imaginadas ganhavam vida. Sentada na sua cadeira com a chávena de chocolate à frente, escuta com atenção o que Joaquim e Cristina fazem. É como se visse com os ouvidos. Pelos ruídos que ouve, a avó sabe o que estão a fazer. E tem sempre alguma coisa a dizer-lhes:</p>
<p>— Não estás a fazer Belém de uma só vez, pois não, Joaquim?</p>
<p>— Isso não vai assim tão depressa, senhora General — responde ele. — Ainda só estão um par de casas e o estábulo da hospedaria no monte.</p>
<p>— O estábulo é construído no fim de tudo — diz a avó. — O mais cedo, a vinte e três de Dezembro. O presépio é a coroa e a coroa vem sempre no fim. Estás com o campo dos pastores, Cristina?</p>
<p>— Sim — diz Cristina. — Estou a prepará-lo com areia e musgo e já comecei a fazer algumas estradas e caminhos para as primeiras pessoas que vão chegar.</p>
<p>— Está bem — responde a senhora. — Faz os caminhos de acesso com areia e pedrinhas.</p>
<p>— O que é isso de caminhos de acesso? Isto aqui são umas autênticas auto-estradas! — exclama Joaquim.</p>
<p>— Que tolice, meninos. Quando Jesus nasceu, ainda se viajava de burro, de cavalo e de camelo, ou ia-se a pé. Mas auto-estrada? Que tolice!</p>
<p>— Não te preocupes, avozinha — consolou-a Cristina. — Eu ponho umas pedrinhas e uns bocadinhos de musgo na auto-estrada do Joaquim e ela fica logo a parecer um caminho a sério. Que figuras coloco em primeiro lugar? O velho de barba branca comprida guiado por um rapaz de pele escura?</p>
<p>— Certo, esse mesmo — responde a avó, reclinando-se confortavelmente na cadeira para se lembrar da vida dessa figura do presépio.</p>
<p>— Vou pô-la no início do caminho — explica Cristina para Anai ficar a saber, e prossegue:</p>
<p>— No ano passado também teve de ficar neste sítio. Porque é que todos os anos tenho de colocar o velho de barbas com o rapaz no princípio do caminho?</p>
<p>As crianças levantam os olhos para a avó na expectativa. Quando ela se senta assim, quando se põe confortável, começa imediatamente a contar uma história. Vai falar da vida do velho de barbas. Cada ano conta a história de determinadas figuras do presépio. A maioria das pessoas conhece apenas as histórias de Maria e José e do Menino Jesus. Também sabem alguma coisa dos pastores e dos reis do Oriente. Mas de todos os outros que estavam em Belém – e havia mais gente – desses, ninguém sabe nada. Só a avó é que imagina todo o tipo de histórias como se estivessem escritas na sua mente. Já não consegue ler com os seus olhos cansados, por isso inventa-as. E, enquanto Joaquim e Cristina vão trabalhando afincadamente no presépio, ela começa a falar do velho de barbas.</p>
<p>— Ninguém sabe ao certo de onde vem, é difícil de dizer. Provavelmente de um país do sul, pois a pele é escura, embora não tão escura como a do rapazinho que o guia.</p>
<p>— Porque é que ele tem de ser guiado? — pergunta Cristina.</p>
<p>— Espera! — sibila Joaquim, que tem muita curiosidade em saber a história e não gosta que a avó seja interrompida.</p>
<p>— Isso mesmo — diz a avó. — Esperai, que já ides saber. O homem procurara durante toda a vida um enorme diamante azul, do qual ouvira falar quando era novo. Quem possuísse esse diamante, dizia-se, detinha o poder sobre o coração dos homens. Aquilo soava tão tentador, que se enraizou no homem de barbas e fê-lo andar toda a vida de terra em terra. Procurou por todo o lado o enorme diamante de que o marinheiro lhe falara, que por sua vez tinha ouvido a outros. Nos portos de mar contam-se sempre destas histórias, onde a verdade e o sonho, ou até o delírio, são difíceis de separar. O certo é que o nosso barbudo acreditou na história da pedra mágica e, como já tinha idade suficiente, juntou os seus bens e pôs-se a caminho à procura da pedra. Primeiro, foi para o Egipto, onde estavam a ser construídas as pirâmides. Numa daquelas pirâmides bem podiam estar escondidos todos os tipos de tesouros…</p>
<p>Desta vez, foi Joaquim a interromper a narrativa.</p>
<p>— Hoje sabe-se o que estava nas pirâmides: múmias, vasos, pinturas e, aqui e ali, um escaravelho petrificado!</p>
<p>— O que é isso? — perguntou Cristina.</p>
<p>— É um escaravelho que se transformou em pedra e não é nenhum diamante gigante, não é assim, Anai?</p>
<p>— Tens razão. Não encontrou o diamante nas pirâmides.</p>
<p>Anai faz agora uma pequena pausa. Quer encontrar a continuação da história. Para isso tem de perscrutar dentro de si. E os seus ouvidos, sempre tão apurados, não ouvem que os dois irmãos pararam naquele momento, fascinados, a olhar para ela.</p>
<p>— Também passou a pente fino a ilha de Creta, no Mediterrâneo, à procura do diamante azul — diz a avó em voz baixa, falando para si. — Nessa ilha, os habitantes tinham como deus um terrível touro. O monstro quase comia o homem. É verdade! Ele ousara entrar no labirinto da gruta do monstro porque se convencera de que talvez este estivesse de guarda à pedra que procurava. Mas acabou por escapar ao monstro. Depois de se ter certificado de que no palácio do rei de Creta também não havia nenhum diamante gigante, pediu mais informação aos marinheiros. Os marinheiros costumam saber sempre de alguma coisa. Talvez na Índia… diziam uns.</p>
<p>Então o nosso caçador de tesouros decidiu ir à Índia. Fretou um navio mercante e partiu. A viagem durou quase um ano. Naquela altura o Canal de Suez ainda não existia e para se chegar à Índia era preciso contornar-se toda a costa africana. Além disso, também não havia barcos a vapor ou a motor. Para velejar era preciso vento e, na sua ausência, braços fortes para remar. Foram precisos onze meses e alguns dias para o nosso viajante calcar finalmente terras da Índia. Que palácios e templos maravilhosos ele viu! Torres de marfim e janelas com caixilhos de ouro, jardins esplendorosos com colibris coloridos e elefantes brancos. Não havia dúvida, a Índia era o país certo para diamantes azuis gigantes. Só que não se alcançam tesouros daqueles a troco de nada. O nosso viajante teve de comprar um elefante e, montado nele, entrar na floresta, onde certamente estariam ocultos palácios ainda mais sumptuosos, a acreditar no que se ouvia nas tabernas dos portos. Porém, na selva, espreitam muitos perigos: tigres, panteras, crocodilos, tarântulas e cobras venenosas, para não falar do terrível calor durante o dia, e das ainda piores enxurradas durante a noite. E foi contra tudo isto que o nosso viajante teve de lutar. Mas a ambição do poder torna os homens persistentes; ela é como um demónio e leva ao extremo aquele que por ela se deixa dominar. Finalmente, numa manhã, após longa cavalgada de várias semanas pela floresta virgem e muita fadiga, o homem deparou-se com as ruínas enormes e antiquíssimas de um templo. Em épocas há muito submersas pelo tempo, devia ter sido uma das construções mais sumptuosas à face da terra, pelo que ainda se podia ver daquilo que restava. Aqui, aqui e em mais nenhum lugar teria de estar escondido o mítico diamante azul.</p>
<p>— E então? — perguntou Cristina. — Encontrou-o?</p>
<p>A avó meneou a cabeça, e continuou:</p>
<p>— Vamos com calma! Perto dali vivia um povo indígena cujos antepassados teriam construído aquela obra. Eram pessoas amáveis e pacíficas, mas também medrosas. Ajudaram o viajante na sua busca, embora isso não lhes tenha sido fácil. Até ali tinham-se mantido sempre afastados das ruínas do templo porque pensavam que era habitado por espíritos maléficos, mas o homem tinha prometido recompensá-los caso o ajudassem. Dia após dia, revolveram as ruínas do velho edifício coberto de trepadeiras e que ocupava uma grande área. Finalmente depararam com umas escadas misteriosas que desciam para a cave…</p>
<p>A senhora faz uma pequena pausa na narrativa e inspira fundo, como se ela própria estivesse em frente das escadas da cave, na Índia. Cristina e Joaquim estão neste momento a fazer, com musgo e areia, o campo para os rebanhos dos pastores, mas, quando a avó interrompe, levantam os olhos para ela, impacientes.</p>
<p>— Então? O que é que o homem de barbas fez? Desceu à cave?</p>
<p>— E se havia cobras lá dentro? — lembra-se Cristina.</p>
<p>A avó anuiu com um movimento de cabeça e continua:</p>
<p>— Pior do que cobras: trezentos e sessenta e cinco degraus. Tantos, quantos os dias do ano.</p>
<p>— Então a cave devia estar muito funda! — diz Joaquim.</p>
<p>— Se estava, filho! Apesar disso, o viajante viu, ao espreitar para baixo, um brilho azul-prateado que só podia vir de um diamante de grandes dimensões! Mas nenhum dos nativos se atrevia a descer. Não tinham a ambição do poder, mas sim medo. Receavam cobras, monstros ou espíritos maléficos; avisaram o aventureiro e imploraram-lhe que voltasse para trás, mas em vão. Agora que ele se encontrava tão perto do fim, ao cabo de tanto tempo de busca, o desejo de poder crescera demasiado. Não lhes deu ouvidos e iniciou a descida.</p>
<p>— Trezentos e sessenta e cinco degraus — calculava Joaquim — descem-se em cinco minutos, se não estiverem a desfazer-se!</p>
<p>— Não estavam. O homem não precisava de luz pois, à medida que ia descendo, o brilho da pedra misteriosa ia ficando mais intenso, depois mais claro e mais forte, assustadoramente ofuscante, até, por fim, quase dilacerar. Os olhos começaram a doer-lhe, mas os pés não hesitaram uma única vez. Precipitou-se para o fogo azul, saltou os últimos degraus e ali estava o diamante do tamanho de uma cabeça, ainda mais cintilante do que o sol num dia de Verão. Porém essa luz era fria, terrivelmente arrepiante e ofuscante, e não havia olhos humanos que conseguissem suportá-la.</p>
<p>Pois é, a ambição do poder pode cegar os humanos. Quando o homem descia apressadamente os últimos degraus, já os olhos haviam começado a doer-lhe terrivelmente. Não se importara, embora a dor se intensificasse e se fosse tornando cada vez mais dilacerante. Ao chegar junto do diamante, o raio azul matou-lhe os olhos e o homem ficou cego para toda a vida.</p>
<p>— Mesmo cego? — perguntou Cristina. — Mas então como é que ele subiu as escadas?</p>
<p>— Oh, de início não pensou que tivesse ficado cego. Achava que o fogo do diamante o tinha momentaneamente encandeado, por isso chegou junto da pedra às apalpadelas e tentou levantá-la para a levar. O diamante, porém, estava agarrado ao chão e crescia com a terra como uma árvore milenar. Ninguém conseguiria pegar no diamante azul…</p>
<p>— Nem com uma grua?</p>
<p>— Não, nem com uma grua.</p>
<p>— Não conseguiu, pronto — Cristina tenta fazer a avó apressar a história. — E como é que a história continua?</p>
<p>— Como é que continua? Bem é que não será. Passaram-se horas de grande tormento, de esforço e de decisões amargas, até ele se dar conta de que a pedra não podia ser erguida nem transportada. E novamente se passaram horas até que os indígenas, que esperavam por ele em cima, o viram subir as escadas de joelhos, como um animal. Teve de tactear degrau a degrau. A procura da riqueza e do poder tinha-o cegado e, dessa forma, levado ao desamparo. Sozinho, nunca teria encontrado a saída para fora da selva. Os indígenas, amáveis, deram-lhe um rapazinho órfão esperto e forte, que passaria a guiá-lo. O rapaz conhecia a selva e os animais selvagens. Crescera nela e sabia vencer todos os perigos. Iria doravante ficar com o cego, e assim deambularam pelo mundo, dia após dia, o homem de barbas, que entretanto envelhecera, e o rapaz de pele escura.</p>
<p>— E de que é que ele andam agora à procura? — pergunta Cristina.</p>
<p>— De paz. Só procuram a paz.</p>
<p>— E essa também é uma busca assim tão perigosa e difícil como a do diamante azul?</p>
<p>— Mas vocês não vêem que eles vão a caminho de Belém, a caminho do filho de Deus? Quem parte ao Seu encontro quer paz e é lá que a encontra. Vá, colocai o velho de barbas e o rapaz a meio do caminho que leva ao estábulo da hospedaria. Fazem ambos parte do nosso presépio, assim como os pastores e os três reis do Oriente, que hão-de aparecer mais tarde, claro. Em que ponto é que vocês vão?</p>
<p>Joaquim ainda está a dar forma ao cenário, enquanto Cristina retira as figuras de madeira, cuidadosamente embrulhadas em papel de seda. Bem, o velho caçador de diamantes já lá está.</p>
<p>— Qual é a figura que ponho a seguir? — pergunta ele, ao que a avó responde:</p>
<p>— Peguem no negociante de gado com o boi.</p>
<p>— Eles também vão a Belém, ao Menino Jesus?</p>
<p>— O boi, vai. Quando o filho de Deus vier ao mundo, ele vai lá estar com o burro e os outros animais.</p>
<p>— E qual é o papel do vendedor no meio de tudo isto? — insiste Cristina. Os netos bem sabem que, para a avó contar algumas das histórias, tem de levar um empurrãozinho.</p>
<p>— Já vou contar. E vocês pegaram na figura certa? Ora descreve-ma lá, Cristina.</p>
<p>— É de madeira, tem cabelos ruivos despenteados, e está talhada com muita perfeição. Até se consegue ver cada pêlo do bigode. É bastante gordo e tem um avental verde.</p>
<p>Satisfeita, a senhora acena a cabeça.</p>
<p>— É esse mesmo. Põe-no mais adiantado no caminho, mais perto de Belém do que o cego, para o boi chegar a tempo.</p>
<p>— Estes dois também percorreram um longo caminho, como o cego e o guia?</p>
<p>— Oh, não! O vendedor vem de Jerusalém, onde tem um negócio de gado. Negoceia com vitelos, carneiros e porcos e, quando calha, também com aves.</p>
<p>— Ah! Então é por isso que também há galinhas na caixa! — exclama Cristina. — Ponho-as à volta dele?</p>
<p>— Tolinha! — responde-lhe a avó. — Primeiro, ele nunca as deixaria andar à solta, pois as galinhas não seguem uma pessoa, como os cães. Depois, as galinhas pertencem à estalagem. Mais tarde hão- de ficar pousadas nas traves do estábulo a olhar para o presépio.</p>
<p>— E o negociante quer oferecer o seu boi ao menino Jesus — conclui Joaquim.</p>
<p>A avó começa a rir.</p>
<p>— Ele? Nunca! Não dá nada a ninguém, nem um grão de milho. “A mim também nunca ninguém me dá nada!”, costuma ele dizer, e “Negócio é negócio!”. Só pensa no negócio. Nem sequer vai reparar que, no estábulo, veio ao mundo o filho de Deus.</p>
<p>— Nesse caso, porque é que tem de estar aqui no presépio? — pergunta Cristina indignada.</p>
<p>— Tem de lá estar porque também há pessoas assim. Ele pertence ao mundo onde Jesus vai nascer. Pessoas destas há-as sempre. E vós? Tendes a certeza de que, na noite de Natal, ides pensar no menino Jesus, de que ides fazer alguma coisa por ele?<br />
Cristina meneia a cabeça e diz, olhando de esguelha para o irmão:</p>
<p>— De certeza que o Joaquim só vai pensar na bicicleta nova que pediu.</p>
<p>— E tu? — sibila Joaquim em resposta. — Tu só pensas em vestidos chiques e nos teus discos.</p>
<p>A avó bate com o punho na mesa energicamente.</p>
<p>— Silêncio! Agora não se discute!</p>
<p>— Às suas ordens, senhor General!</p>
<p>— Vocês são uns tolinhos! Ouçam mas é o que o comerciante vai fazer na noite de Natal, enquanto o boi aquece o menino com o seu bafo. Vai sentar-se na taberna mais próxima e esfregar as mãos, porque conseguiu vender o boi ao estalajadeiro por bom preço. E como fez um bom negócio, vai festejar com uma aguardente.</p>
<p>— Só isso? — pergunta Cristina desiludida. Não consegue imaginar que o vendedor vá desprezar um acontecimento que será festejado durante séculos, por milhões de pessoas.</p>
<p>Mas a avó responde simplesmente:</p>
<p>— Só isso. Para ele, festejar alguma coisa é com aguardente. E só festeja os bons negócios. Puseste-o no caminho, Cristina?</p>
<p>— Sim, embora ele não devesse lá estar.</p>
<p>— Claro que devia! Ele tanto pertence à festa de Natal como tu e eu e as outras pessoas todas. Jesus não veio à terra só para alguns eleitos! Tira agora as próximas figuras da caixa, Cristina. Tem de ser o grupo: avô, pai, mãe e dois filhos. Já os encontraste?</p>
<p>Claro que Cristina os encontra imediatamente. Um grupo daqueles não passa despercebido. Mas o que é que eles estão a fazer em Belém, e logo um grupo?</p>
<p>— Vêm fazer o recenseamento que o imperador Augusto ordenou por aquela altura. Por isso é que José e Maria também vêm a Belém, como está escrito na Bíblia: “Naqueles dias foi publicado um decreto de César Augusto convocando toda a população do império para recensear-se. Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade.” Esta família faz parte dessas pessoas.</p>
<p>— E o que lhes acontece em Belém? — perguntam as crianças.</p>
<p>A avó pensa um pouco e responde:</p>
<p>— Pode ser que tenham reparado na estrela por cima do estábulo e perguntado o que significaria aquele sinal. De certeza que encontraram bom alojamento numa estalagem. No presépio é que não ficaram, senão viria nas Sagradas Escrituras. Talvez venham a compreender o que aconteceu no estábulo e cheguem a ver o filho de Deus e nunca O esqueçam. Seja como for, vão a caminho de Belém. São pessoas prestáveis e boas, penso eu. Não têm aspecto de ser ordeiras e trabalhadoras? Talvez estas pessoas deparem mais tarde com o séquito sumptuoso dos três reis do Oriente. Ou, pelo menos, com os pastores que vêm dos campos.</p>
<p>E neste ponto a avó lembra-se da figura do pequeno pastor, quase ainda uma criança.</p>
<p>— Deve ser uma figurinha quase de menino, Cristina. De certeza que está na mesma caixa.</p>
<p>Quando Cristina o encontra, repara que já tem braços, pernas e músculos fortes como os de um homem.</p>
<p>— Não admira — responde a senhora. — É do trabalho duro por que teve de passar. Deve ter, no máximo, quinze anos e já tem de lutar pela vida. Não tem pais, nem uma avó que o mime com chocolate e bolachas, nos domingos do Advento. Era um rapazinho pobre e rude, sem lar, que não sabia quem eram os pais e com quem ninguém se preocupava…</p>
<p>Joaquim abana a cabeça e diz:</p>
<p>— Isso é tão triste! Até parece uma história de jornal!</p>
<p>— Seu fala-barato! — critica-o a avó, um pouco zangada. — Se não houvesse vidas destas na realidade, não viriam no jornal. Não quer dizer que todas as coisas tristes tenham de vir nos jornais. Da maior parte delas ninguém fala, mas ainda hoje lá podes ler histórias como a deste rapaz. Aos doze anos perdeu os pais; morreram um a seguir ao outro numa epidemia que atingiu muitas pessoas. Ou terão morrido numa guerra? Já não sei ao certo. A verdade é que, desde então, o rapaz passou a vaguear pelo país. Naquela altura ainda não havia associações, como há hoje, que tentam ajudar estas crianças. Aquele que acordaria as consciências para a dor do próximo, ainda não tinha nascido. Ah, e em algumas pessoas, ela ainda hoje está por nascer. Precisa de tempo. A única solução era mendigar. Também tentava uns trabalhos aqui e ali, junto dos lavradores e dos jardineiros, mas as pessoas aproveitavam-se do infeliz, matavam-no com trabalho e como forma de pagamento nem sequer lhe davam comida suficiente. Já se pode imaginar a ideia que ele foi formando dos homens. Começou a odiá-los e o ódio é o sentimento que causa mais danos; torna uma pessoa má. Do ódio nascem pensamentos de vingança. O rapaz começou a roubar e a fazer coisas ainda piores para se vingar dos homens que se tinham aproveitado dele. Quando se deram conta, as pessoas ficaram muito zangadas e expulsaram-no; era a solução mais fácil, e ele teve de continuar a vaguear sem destino. Certo dia, chegou a uma cidade à beira-mar… Sim, pode ter sido isto que aconteceu. Pela primeira vez na vida, estava a ver um porto com barcos grandes e maravilhosos que vinham de Nápoles e de Roma, da Grécia, do Egipto, da Espanha e da Pérsia. E foi lá que ouviu dos homens do mar contar histórias e relatos fantásticos, infelizmente nem sempre verdadeiros. Naquela altura, ele ainda não sabia que muitas coisas são substancialmente mais bonitas em algumas cabeças aventureiras do que na realidade. Só ouvia as fascinantes palavras das histórias encantadas. Não admira que o desejo de viajar num barco para maravilhosas terras distantes se apoderasse dele de repente. Talvez os homens fossem mais amáveis noutro sítio do que ali, pensava ele. Talvez recebesse comida suficiente a bordo de um barco, sem antes ter de esfalfar-se a trabalhar até cair meio-morto. “Talvez…” Sim, o que não se sonha quando se vê pela primeira vez um porto cheio de navios. Mas para que serve um rapaz que não aprendeu a fazer nada? Não tem valor para ninguém e está disposto a fazer qualquer tarefa, mesmo a mais baixa. Ninguém se preocupa com ele, ninguém quer saber se tem fome, se dormiu o suficiente, se não leva carregos demasiado pesados para a idade. Quem é que pensa nisso? Não interessa ao timoneiro nem ao capitão. Mas vocês ainda estão a ouvir-me, meninos?</p>
<p>A avó não reparara que os dois quase haviam esquecido o presépio e já só a escutavam.</p>
<p>— Então o rapaz esteve num barco? — pergunta Joaquim.</p>
<p>— Certamente. Onde é que teria arranjado aqueles músculos? Nos velhos tempos, o trabalho a bordo era difícil. Com vento bom, velejava-se. Içar e recolher velas num navio, era um trabalho colossal, garanto-vos. Sei isso muito bem pelo meu avô. Era preciso ser-se rápido, ágil e forte e estar-se atento dia e noite sem parar. Claro que punham o rapaz de vigia durante mais tempo e com mais frequência, e era ele que tinha de subir ao mastro mais alto. Tudo piorava durante a calmaria, quando as velas não serviam e o navio ficava parado no mar tal como uma ilha! Em baixo, no porão do navio, os escravos comprados ou roubados iam presos a correntes. Homens que, quem quer que fosse o dono, poderia fazer com eles o que quisesse, porque tinha mais poder e força. E o que faz o capitão de um navio durante uma calmaria? Manda os escravos remar. Imaginem o que é remar num barco gigantesco, já de si pesado, e ainda por cima carregadíssimo. E da Palestina à Índia, se fosse preciso! Vocês bem sabem que na altura ainda se contornava a África, dia após dia, noite após noite, no calor abrasador e sufocante dos trópicos, sempre a respirar o ar viciado do interior do navio. Não admira que algumas destas pobres almas sucumbissem. E quem tinha de ocupar o lugar vago quando era preciso, quem tinha de mourejar como um escravo? O nosso órfão, claro.</p>
<p>— Se ele tivesse ficado em terra — suspira Cristina.</p>
<p>A avó acena que não, com a mão no ar.</p>
<p>— Tivesse! Tivesse! Se!&#8230; Depois é muito fácil falar. Mas, para vos sossegar, digo-vos que, depois de ter participado numa viagem destas e o barco, ao fim de alguns meses, ter regressado à pátria, ele foi o primeiro a abandoná-lo. Tinha tanta pressa, que nem esperou que pusessem um passadiço ou um escaler. Mal viu a costa do seu país, passou a amurada com um salto desenfreado. Há semanas que andava com medo que o dono do navio o acorrentasse também a ele no porão. Não, saltou cinco metros para o fundo do mar e nadou para terra à força de braços.</p>
<p>Joaquim bateu na figura de madeira que representava o rapaz e disse:</p>
<p>— E deve ter sido perseguido por algum tubarão que lhe comeu um bocado.</p>
<p>— Porque é que dizes isso? — perguntou a avó admirada.</p>
<p>— Porque falta uma pontinha do pé esquerdo.</p>
<p>— Isso tanto pode ter sido um tubarão como o bicho da madeira — respondeu a senhora.</p>
<p>— E o que é que lhe aconteceu depois? — pergunta Cristina.</p>
<p>— O que havia de ser? Entretanto, nem ele nem as pessoas da sua pátria se tinham tornado melhores. E já tinha tido viagens pelo mar que chegassem. “Nunca mais!”, jurou a si próprio. “Prefiro guardar porcos e enregelar até aos ossos, à noite, ao relento, do que voltar a sentar-me no interior abrasador de um navio, preso a um remo de um metro de comprimento, tão grosso como um tronco de árvore, ensanguentar as mãos e esgotar o coração a trabalhar”. E pronto, podia recomeçar novamente com a vagabundagem. Na cidade portuária não havia porcos para guardar. Num local daqueles, um esfomeado como ele só poderia ter maus pensamentos ao ver no cais os armazéns cheios de comida: sacos com figos e cocos, cestos cheios de tâmaras e bananas, montanhas de amendoins, laranjas e azeitonas, tudo coisas que os grandes navios tinham trazido da Índia e de África. O rapaz foi novamente tentado a vingar-se outra vez dos trabalhos forçados a bordo.</p>
<p>— Ele pensou em roubar! — adivinha Joaquim.</p>
<p>— Sim — anuiu a avó pensativa — quando um esfomeado perdido tira, sem autorização, o excesso de outros, isso também é roubar. Mas só podia roubar se, antes disso, eliminasse o guarda-nocturno.</p>
<p>— Matá-lo? — exclama Cristina. — Matá-lo só por causa da fome?</p>
<p>— Tu nunca tiveste fome a sério — diz Joaquim rudemente à irmã.</p>
<p>— E tu, já? — pergunta ela ironicamente.</p>
<p>— Dai graças por isso — atalha a avó. — Quando a fome se torna insuportável, quando a vida e a morte estão em jogo, isso pode tornar os homens maus. E o estômago do jovem já fazia tanto barulho como um cão a rosnar. A fome tornava a cabeça dele estranhamente vazia, de tal forma que se sentiu atordoado e teve de se acocorar durante algum tempo para ganhar forças. Os seus pensamentos eram confusos e tão sombrios como a noite. E no momento em que estava ali miseravelmente sentado no pó, deu-se conta daquilo em que se tinha tornado e apercebeu-se de como a vida podia piorar se continuasse a viver como até ali. Não tinha também aprendido a trabalhar? Com uns músculos daqueles ia tornar-se um bandido? A meio da noite, só e ajoelhado no porto às escuras, escutava dentro de si e, de repente, sentiu nojo de si próprio porque tinha querido matar um homem para ele sobreviver. Foi nesse momento que decidiu partir para Belém. Levantou-se. Não queria voltar a pensar nos armazéns cheios. Talvez tenha ficado ali de pé por um instante a pensar nisso. Um instante daqueles pode decidir uma vida inteira, pode mudar um homem radicalmente — dependendo do que o indivíduo decide. Nós temos este poder.</p>
<p>— Mas o que é que ele fez depois? — pergunta Cristina. — O que é que decidiu?</p>
<p>— Virou costas aos armazéns e saiu dali, seguindo pelas ruas da cidade portuária, sempre, sempre na direcção do campo. Às portas da cidade encontrou uma caravana que queria aproveitar o fresco da noite para fazer a viagem pelo deserto. A seu pedido, levaram-no com eles, pois mais um menos um não faz diferença a uma caravana. Quando descansavam, o rapaz tinha de dar de beber aos camelos e de manter acesa a fogueira. Como paga, dividiam com ele as provisões de pão e água. Alguns dias mais tarde, chegaram ao destino e deixaram de precisavar dele. Na despedida, recompensaram-no com três peças de prata, pois sempre se mostrara prestável e queriam agradecer-lhe por isso e também ajudá-lo. Foi em Jerusalém que se despediu da caravana e vai agora a caminho de Belém.</p>
<p>— Disseste que lá iria ser ajudado — lembrou Joaquim.</p>
<p>— No caminho qualquer um pode ser ajudado, filho. Mais uns passos e encontrará os pastores a guardar os rebanhos. Vão tomá-lo como aprendiz e assim vai acabará a vagabundagem. E além do mais, vai aprender uma profissão a sério.</p>
<p>— E na Noite de Natal — continua Cristina — vai ouvir, juntamente com os pastores, o coro dos anjos e dirigir-se-á com eles ao presépio.</p>
<p>— Talvez… — responde a avó e pergunta:</p>
<p>— Onde é que o colocaste?</p>
<p>— É o que vai mais adiantado no caminho.</p>
<p>— E é mesmo — diz a avó num tom como se por hoje tivesse acabado a construção do presépio e as histórias.</p>
<p>Mas os irmãos ainda não terminaram. Por terem ficado tanto tempo à escuta, não conseguiram trabalhar muito. No entanto Cristina tem uma queixa a apresentar, e com razão.</p>
<p>— Até agora só contaste histórias com homens, avó, mas também há mulheres e meninas no meio das figuras. Aqui, por exemplo, esta pequenita de cabelo preto comprido.</p>
<p>— Ah, sim, é a Hanneh — a senhora reconhece-a de imediato e começa a dar orientações aos netos. — Tens de a pôr antes de Belém, longe da cidade, no meio da floresta.</p>
<p>— Ainda não acabei a floresta — anuncia Joaquim — mas se entretanto contares a história de Hanneh, de certeza que acabo.</p>
<p>— Vocês são muito espertos! — suspira a avó. — Conseguem sempre dar-me a volta. Mas esta é mesmo a última história por hoje!</p>
<p>— Também já está a ficar escuro — diz Cristina — e de qualquer maneira temos de acabar em breve. Então o que é que se passou com Hanneh?</p>
<p>— Quando Hanneh andava perdida pela floresta próxima de Belém, também já estava escuro — recomeça Anai novamente. — Hanneh tinha-se perdido e estava com medo. Podiam aparecer lobos, algum leão, ou até ladrões! De manhã, não tinha pensado nestas coisas tão terríveis. De manhã apenas se sentira furiosa. A mãe acordara-a ao nascer do sol. “Hanneh, levanta-te! Depressa!” E logo de manhã, que era quando ela mais gostava de dormir.</p>
<p>— Como a Cristina.</p>
<p>— Está calado, Joaquim! Por favor, avó, continua. Porque é que a mãe acorda Hanneh tão cedo?</p>
<p>— O irmãozinho havia adoecido durante a noite, dissera a mãe, e Hanneh tinha de ir a correr à aldeia vizinha chamar o curandeiro. “Ai, ai, ai”, pensava Hanneh. “É sempre o irmãozinho. Então e eu? Ele não há-de ter nada de grave.” Estava um pouco zangada e levou mais tempo a vestir-se, por birra e ciúme. “Quando estou doente”, pensava ela, “limitam-se a dizer: – Coragem! Isso passa depressa! – dão-me um chá horrível e acabei sempre por ficar boa. Que dêem ao meu irmão desse chá horrível! Lá há-de parar com a choradeira.” Hanneh não estava com pena nenhuma do pequenito, mas sim dela, que tivera de se levantar tão cedo. Também tomou de propósito o pequeno-almoço tão devagar, que os pais, preocupados, começaram a ralhar-lhe, o que só piorou a teimosia de Hanneh. Então eles queriam que ela fizesse, tão de madrugada, aquele longo caminho e ainda por cima estavam a ralhar com ela? Queriam que ela fosse à aldeia vizinha, a correr, de barriga vazia?</p>
<p>— Só mesmo uma rapariga — resmunga Joaquim. — Têm sempre de fazer teatro.</p>
<p>Cristina faz de conta que não ouviu a observação despropositada, e a avó continua a contar, após um pequeno aceno de cabeça:</p>
<p>— Quando finalmente Hanneh saiu de casa, estava tão furiosa que decidiu vingar-se da repreensão dos pais. Queria fazer de propósito um desvio para ficar mais tempo fora de casa. Assim os pais também teriam de preocupar-se com a filha. Ela também existia, não era só o irmãozinho, por quem todos tinham de acordar cedo! Hanneh queria fazer um desvio, meter medo aos pais… e o que aconteceu com aquela palermice? Hanneh saiu do caminho e perdeu- se. Andou perdida durante todo o dia pelo leito dos rios, no meio de prados secos e de arbustos espinhosos. O sol dava-lhe na cabeça e não havia sombras. A garganta de Hanneh ardia-lhe de sede, mas a menina não encontrava água em parte alguma. A fome aparecerá também mas com o que é que havia de a calar? No ar, por cima dela, planavam abutres, também eles com fome, e Hanneh sabia de que é que eles estavam à espera.</p>
<p>— De Hanneh, talvez? — pergunta Cristina assustada.</p>
<p>— De quem é que havia de ser? — responde Joaquim, conhecedor, como se todos os dias estivesse em contacto com abutres.</p>
<p>— Quando começou a escurecer — prossegue a avó, imperturbável — Hanneh ainda estava no meio daquele deserto. A cólera já tinha desaparecido e dera lugar a um medo horrível. Por detrás de cada arbusto podia estar à espreita uma fera e, por detrás de cada rochedo, um ladrão. Também não deixava de pensar no irmãozinho a chorar em casa. E se ele estivesse de facto gravemente doente e precisasse de facto de socorro rápido? Talvez o pai, entretanto, se tivesse posto a caminho da casa do curandeiro, talvez tivesse partido à procura de Hanneh. Chamou por ele, gritava como um cordeirinho perdido, mas não recebia resposta. Ficou tonta com o medo e deixou-se cair na areia. Hanneh não podia mais porque já não tinha esperança de alguma vez sair daquele lugar desértico. De certeza que iria aparecer imediatamente um animal selvagem para a comer, como castigo pela sua impertinência. Se encontrasse o caminho para Belém, o caminho para casa, para junto do pai e da mãe e do pobre irmãozinho!</p>
<p>Em grande aflição lembrou-se que o pai lhe dissera uma vez que, de noite, era possível encontrar o caminho a partir das estrelas. Muito bonito, mas como? “Talvez”, pensava ela, “as estrelas estendam o dedo, ou algumas setas, ou outro sinal qualquer”. E Hanneh olhou para o céu, à procura. Ficou sem respiração. Nunca vira nada de tão maravilhoso brilhar assim! Longe, no céu, à sua frente, estava uma estrela grande e brilhante com um feixe de raios cintilantes a formar uma cauda.</p>
<p>Hanneh levantou-se. Não olhava onde punha os pés. Só queria ver a estrela. Não a perdia de vista e seguiu-a. Não era preciso ser-se Mago do Oriente para perceber que uma estrela daquelas indicava um caminho. Para cada um, um caminho diferente. Nós sabemos qual o da menina, pois a estrela maravilhosa estava sobre Belém. Hanneh encontrou o caminho para casa, a corta-mato pelos campos e terrenos selvagens. Estava tão contente por regressar a casa que nem tinha medo da eventualidade de ser castigada pelos pais. Não podia esconder-lhes que ela, que conhecia tão bem o caminho para casa do curandeiro, andara, por maldade, a correr pelo deserto. Hanneh só temia por uma coisa: pelo irmãozinho.</p>
<p>Mal entrou em casa, encontrou o pequenito a dormir calmamente e os pais em aflição pela sua menina perdida. Felizes, tomaram a filha nos braços sem lhe ralharem. E, admirados, deixaram-se conduzir por ela outra vez para fora de casa, para verem a estrela maravilhosa que pairava acima deles e que Hanneh queria mostrar-lhes. Quanto não se tinham preocupado uns pelos outros naquele dia! E tanto os pais como Hanneh tinham aprendido algo de importante: era preciso ter mais amor e compreensão uns pelos outros. Mas a noite trazia-lhes finalmente paz.</p>
<p>A avó está muito cansada de tanto contar e reclina-se confortavelmente na sua cadeira.</p>
<p>— Em que ponto é que estão? — pergunta.</p>
<p>Joaquim acabou o deserto. Cristina ainda tem na mão a menina e olha para ela pensativamente.</p>
<p>— Por hoje conseguimos fazer tudo — responde. — Só não sei agora onde pôr Hanneh.</p>
<p>— Antes de Belém, no deserto, como disse há pouco, meninos, pois na Noite de Natal ela ainda vai a caminho. Só mais tarde é que chegará a casa.</p>
<p>Cristina coloca obedientemente a menina no ermo artificial tão bem preparado por Joaquim.</p>
<p>— Ainda faltam três domingos — suspira, feliz. — Tantas figuras ainda… e o mesmo número de histórias!</p>
<p>— Vendo bem — afirma Joaquim — ainda vão todos a caminho, tanto o cego com o rapaz, como Hanneh e o negociante de gado, o órfão e a família, os pastores e os reis.</p>
<p>— Foi assim na altura — responde a avó — e assim é hoje em dia. Há sempre alguém a caminho do presépio. Também nós e muitos daqueles que conhecemos seguimos por este caminho em direcção à estrebaria de Belém.</p>
<p style="text-align:right;">Eva Rechlin<br />
<em>Der Weihnachtsweg</em><br />
Wuppertal, Johannes Kiefel Verlag, 1970<br />
tradução adaptada</p>
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		<title>Sonhos de Natal</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Nov 2008 11:18:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pnatal</dc:creator>
				<category><![CDATA[Natal]]></category>
		<category><![CDATA[Noite de Natal]]></category>

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		<description><![CDATA[  Eu nasci e vivi alguns anos numa aldeia muito pequena escondida por uma enorme mancha de altos pinheiros e carvalhos gigantescos. Pedra de Hera era o nome dessa aldeia. Todos os anos, com a chegada do Outono, da chuva e dos fortes ventos, as castanhas desprendiam-se dos redondos ouriços que enfeitavam os castanheiros centenários [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=prepararonatal.wordpress.com&amp;blog=1641256&amp;post=21&amp;subd=prepararonatal&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#003366;"><em><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"> </span></em></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 7.2pt;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Eu nasci e vivi alguns anos numa aldeia muito pequena escondida por uma enorme mancha de altos pinheiros e carvalhos gigantescos. Pedra de Hera era o nome dessa aldeia.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Todos os anos, com a chegada do Outono, da chuva e dos fortes ventos, as castanhas desprendiam-se dos redondos ouriços que enfeitavam os castanheiros centenários que havia espalhados por toda a Pedra de Hera. Sem as castanhas, os ouriços abertos lá no cimo dos castanheiros faziam-me lembrar ninhos cobertos por picos. E as folhas amarelecidas pareciam cobertores pequeninos a secar ao sol.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Com o passar dos dias e das noites cada vez mais frios, a chuva e as medonhas rajadas de vento punham as copas das árvores a abanar e faziam calar o canto dos pássaros.<span id="more-21"></span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">As folhas dos castanheiros voavam em todas as direcções, como se fossem as borboletas da Primavera. Acabavam por cair em cima dos telhados, nos pátios, nos campos e nos caminhos estreitos, onde, além dos homens, mulheres e crianças, também passavam as cabras e as ovelhas, as vacas, os cães, os gatos, as raposas, os ratos do monte, as doninhas, os coelhos bravos e os javalis.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Quando os ramos dos castanheiros ficavam sem folhas, às vezes a minha pequena Pedra de Hera ficava coberta por um imenso manto de nuvens muito cinzentas.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O vento deixava de soprar, e os pássaros festejavam esse tempo tão sereno com as suas tímidas cantorias. Os camponeses apressavam os trabalhos nos campos e nas matas. Punham bastante comida nos estábulos dos animais. Depois iam sentar-se em frente da lenha que ardia calmamente nas lareiras de pedra, queimadas pelas fogueiras de muitos e muitos anos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Nós, as crianças, começávamos a dar grandes gargalhadas e a saltar de contentes porque sabíamos que a neve não demoraria a chegar. Flocos ainda mais brancos do que as rocas de açúcar desceriam das nuvens, bailariam no ar e cairiam no chão.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E assim acontecia. De repente, os flocos de neve apareciam. E eram tantos e tantos e tantos, dançando e caindo de mansinho, que daí a pouco os caminhos, os campos, as matas e os telhados ficavam brancos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Às vezes, a neve caía de noite sem fazer barulho.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Logo de manhã, enquanto bebia por uma malga com flores azuis o leite fervido e ainda a escaldar que a minha avó Mariana tirava da nossa cabra Lourença, espreitava pela vidraça da janela do meu quarto. E via marcadas na neve que tudo cobria, as patas dos pássaros desorientados e quase me parecia ouvir o bater muito apressado dos seus minúsculos corações. Daí a nada, com um carapuço de lã de ovelha que minha avó tricotara, e me oferecera no primeiro dia em que fui para a escola, pisava a neve, enterrava-me nela, e começava a fazer enormes bolas que acabavam em pedacinhos quando batiam nas paredes das casas, ou nos muros de pedra onde os lagartos e as sardaniscas dormiam profundamente.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Depois aparecia a Ana, a Joana, o Pedro, o Ricardo, meus companheiros de escola e brincadeiras, e também o senhor Afonso, que vivia sozinho numa casa muito pequenina e era muito mais velho que nós. Ele costumava dizer que tinha quarenta mais trinta anos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Eu gostava muito do senhor Afonso e achava normal que ele tivesse quarenta mais trinta anos. Também achava natural que ele brincasse connosco, nos fizesse brinquedos de madeira, e que, de vez em quando, nos chamasse para dentro da sua cozinha escura e pobre e nos oferecesse pataniscas de bacalhau tão bem fritas e tão saborosas como só ele sabia cozinhar. Nem a minha avó era capaz de fazer pataniscas tão boas como as do senhor Afonso. A minha avó ficava triste por eu ter essa opinião, e dizia:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— As pataniscas do velhote são boas porque sabem a fumo. — Minha mãe ria-se. E eu respondia:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Então porque é que a avó não vai fritá-las a casa dele?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Era o que faltava, menino! — zangava-se minha avó Mariana.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Quando vinha muita neve, nós não íamos à escola, que ficava muito longe da nossa aldeia, e o senhor Afonso também saía de casa para nos ajudar a fazer um grande boneco de neve.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Púnhamos-lhe pauzinhos na cabeça a fazer de conta que eram cabelos, uma cenoura para que o nariz ficasse bem comprido.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="color:#003366;"> </span><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Grãos de milho para que pudesse ver, uma manga de uma camisola vermelha a fazer de conta que era uma gravata muito vistosa. E, finalmente, uma vassoura velha para que se transformasse numa bruxa e voasse de noite, se tivesse vontade. Depois, com as mãos dormentes, ríamos muito e corríamos ao encontro das fogueiras, para nos aquecermos. E o senhor Afonso recomendava:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Estejam atentos. Se ouvirem barulho saltem da cama. Se calhar, desta vez é que vai acontecer!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Quando vinha a noite, eu ficava muito ansioso. O que eu mais queria era ver o nosso boneco de neve a voar.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Eu vivia com a minha avó Mariana e com a minha mãe. O meu pai não estava na Pedra de Hera. Quando aconteceu tudo isto que estou aqui a contar, eu não sabia como era a voz do meu pai. Conhecia apenas uma fotografia de um homem muito sério que estava dentro de um caixilho pendurado na sala da nossa casa.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">De vez em quando, o senhor Martins aparecia na Pedra de Hera. O senhor Martins era o velho carteiro, gorducho e bonacheirão, que trazia dentro de um saco de couro envelhecido boas e más novidades escritas em cartas e postais. A minha mãe ficava muito contente, se o via a parar junto de nossa casa. O senhor Martins, enfiado na sua farda de carteiro, quase sempre bastante transpirado por causa da longa caminhada, entregava uma carta a minha mãe e dizia, sorrindo:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Que lhe faça bem!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Minha mãe ia para a cozinha, sentava-se num banquinho, abria o envelope com muito cuidado, retirava uma folhinha cheia de letras e começava a ler. E, enquanto lia, eu via-a sorrir, ficar de repente com um ar muito sério. Quando acabava de ler tudo, dava um suspiro fundo, olhava para mim e dizia:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— O teu pai manda-te mil beijinhos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E a minha avó Mariana perguntava:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Então?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Está bem, tirando as queixas do costume.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Ora num ano, quando as férias do Natal já tinham começado, o senhor Martins entregou uma carta a minha mãe e disse, sorrindo:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Que lhe faça bem!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Minha mãe foi para a cozinha, sentou-se num banquinho, abriu o envelope com muito cuidado, retirou uma folhinha cheia de letras e começou a ler. E, enquanto lia, eu via-a sorrir, sorrir sempre. Quando acabou de ler tudo, arrumou a carta no bolso do avental e não disse nada.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E a minha avó Mariana perguntou:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Então?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Está bem, tirando as queixas do costume.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E eu fiquei muito admirado:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Então ele não manda nada para mim?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Manda dar-te mil beijinhos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Eu não disse mais nada. Mas achei que o meu pai escrevera coisas diferentes naquela carta </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O meu pai estava a trabalhar no Brasil. Fora para lá três meses depois de eu ter nascido. Era o que minha mãe contava.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Um dia ele aparece por aí — dizia a avó Mariana.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">No tempo das férias de Natal, eu, o Ricardo, o Pedro, a Joana e a Ana passávamos muitas tardes enfiados na cozinha do senhor Afonso a ouvir as histórias que ele sabia contar. Às vezes ajudávamo-lo a cortar lenha. Empilhávamos as achas delgadas de carvalho a um canto da cozinha, que ele rachava com um machado muito afiadinho. Depois de estar tudo arrumado, ele dava-nos pataniscas de bacalhau. E era uma festa.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O senhor Afonso também ia cortar lenha para nossa casa. Mas a minha avó, em vez de fazer pataniscas, punha nos pratos arroz com penca e grossas fatias de salpicão cozido.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">No tempo das férias de Natal, cada dia que passava, mais cedo anoitecia. As noites eram imensas e frias e eu, sentado num banquinho, ficava em frente da lareira a desejar que o Natal não tardasse muito a aparecer. Porque é no Natal que os sonhos são mais bonitos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Uma semana antes do Natal, os dias andam ainda mais vagarosamente do que minúsculos caracóis. E dentro de nós vai crescendo uma vontade muito grande de ir ao calendário e apagar todos esses dias.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Naquele tempo também eu pensava do mesmo modo. Lá, na Pedra de Hera, nós andávamos cada vez mais ansiosos. E o Pedro voltava a contar o que lhe tinha acontecido no ano anterior. Nós já estávamos fartos de ouvir aquela história, mas deixávamo-lo falar, porque era muito bonita e fazia-nos sonhar. E eu aprendi, agora que já tenho quase tantos anos como o senhor Afonso, que uma das coisas mais bonitas da vida são os nossos sonhos ou os dos nossos amigos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Contava o Pedro que, na noite de Natal do ano anterior, depois de se deitar na cama, ouviu, a meio da noite, um barulhinho muito estranho. Então, ele, com o coração aos saltos, pensou que era o Menino Jesus que estava a descer pela chaminé para entregar os presentes. Depois de muito hesitar, saiu da cama sem fazer barulho e foi caminhando com muitas cautelas em direcção à cozinha. Quando lá chegou, ficou sem poder falar nem mexer-se quando viu uma luz a desaparecer pela chaminé. Apesar da luz ser muito intensa, ainda teve tempo de ver os pés pequeninos do Menino Jesus.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Se ele aparecer este ano, de certeza que o apanho! — terminava o Pedro, com os olhos muito brilhantes.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— E para que é que tu o queres apanhar? — perguntava a Joana.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O Pedro ficava calado por alguns instantes.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Fazia-lhe muitas perguntas.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Podias pedir-lhe para me levar uma boneca muito grande a minha casa — dizia a Ana, que sonhava ter uma boneca que fosse tão alta como ela.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E eu dizia:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— O Menino Jesus é muito esperto, nunca se deixa apanhar. Ninguém consegue vê-lo.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Eu gostava de o ver&#8230; — suspirava o Ricardo. — E nós também.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Nem sempre houve televisão, vídeo e jogos de computador. A história que estou a contar passou-se num tempo em que essas coisas não existiam. Mas, mesmo sem essas coisas, nós, as crianças, gostávamos de ter presentes muito especiais. Para esse ano a nossa lista era a seguinte:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Ana — uma boneca muito grande.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Joana — uma casa de bonecas, com caminhas, berços e um trem de cozinha.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Pedro — um carro de corrida e uma carroça puxada por um burrinho.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Ricardo — um avião e um barco.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="color:#003366;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;">Manuel (que era eu) — Livros que tivessem muitas figuras coloridas e contassem histórias com aventuras extraordinárias e uma gravata vermelha.</span><span style="font-size:11pt;background:black;line-height:140%;font-family:&amp;padding:0;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Para que é que queres a gravata? — perguntava o Ricardo.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Para parecer bem. Não posso? </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Um avião e um barco é melhor, porque, assim, eu posso brincar a dar muitos passeios.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Os livros são melhores porque contam histórias com princesas, monstros e bruxas.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Tu lês muito bem, mas não sabes a tabuada toda&#8230; — ria-se o Pedro.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E eu fazia de conta que não tinha ouvido. Mas era verdade. Eu nunca me lembrava que sete vezes oito são cinquenta e seis. Mas sabia muito bem que três vezes nove são vinte e sete, sentadinho na retrete está o senhor Valete a comer um sabonete.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E, assim, cada um de nós ficava com o seu sonho. E é por isso que hoje temos profissões diferentes.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">A Ana é costureira e tem uma filha que é muito maior do que ela. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">A Joana é cozinheira num restaurante.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O Pedro é taxista.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O Ricardo trabalha no aeroporto de Lisboa.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O Manuel (que sou eu) inventa histórias e tem algumas gravatas vermelhas.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">No dia vinte e três de Dezembro, depois do almoço, a Joana fazia lembrar a menina da história do Capuchinho Vermelho. Só que, em vez do capuz, a Joana trazia na cabeça um lenço muito florido que era de sua mãe, a Aninhas tecedeira. Toda a gente a tratava assim porque ela tinha um velho tear de madeira onde fazia mantas, lençóis de linho e cobertores de lã. De manhã à noite, ouvia-se sempre o mesmo som, que já nem os pássaros espantava: truc-truc, truc-truc, truc-truc, truc-truc&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Nesse ano, a Joana veio ter a minha casa com o lenço na cabeça e uma cestinha de vime na mão. Atrás dela, cada um com sua cestinha, vinham o Pedro, a Ana e o Ricardo, muito bem agasalhados, com carapuços enfiados na cabeça.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Fomos ter a casa do senhor Afonso, que ficava perto da fonte da Pedra de Hera e encontrámo-lo a dormitar, sentado em frente da sua lareira, onde havia sempre uma panela de ferro com água, muita cinza, um gato e um lume brandinho.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Onde é que vão os meninos com essas cestinhas todas? Vão aos cogumelos, ou há por aí alguma videira que ainda não foi vindimada? — perguntou o senhor Afonso. Riu-se e eu reparei que naquela boca já não havia muitos dentes. E a cara tinha muitas rugas.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Já está na hora de ir arranjar musgo e heras! Venha! Venha! — gritava a Joana.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E ele, muito sério:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Agora não posso, tenho muita coisa para fazer&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Venha agora, se não, vem a noite e já não conseguimos fazer nada.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Se eu for, o que é que os meninos me dão?!&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Ficámos calados a olhar uns para os outros. Nós não tínhamos nada para lhe dar.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Perderam a língua?!&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Então, eu lembrei-me das nozes que trazia nos bolsos das calças.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Dou-lhe duas nozes.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Não quero, é muito pouco&#8230; E eu já não tenho dentes para comer nozes&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Venha, por favor! – pediu a Ana.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Está bem. Se é um favor que me pedem&#8230; É só o tempo de calçar as botas.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Pouco depois, andávamos na mata a escolher o musgo que revestia pedras e penedos. E as nossas cestas foram-se enchendo de pequeninos tapetes verdes que não se podiam dobrar.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Deixem ficar a terra, levem só o musgo — aconselhava o senhor Afonso, colhendo heras para um cesto.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">As heras tinham muitos metros de comprimento e bagas muito pretas. Eu punha-me a imaginar que aquelas bagas bem podiam ser os olhos das heras. Às vezes, também imaginava como seria bom se os pássaros falassem connosco, mesmo os gaios e os melros que me roubavam as cerejas da cerejeira e bicavam as peras que havia no meu quintal.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Quando as cestas ficaram cheias, carregámo-las para o cimo da Pedra de Hera. Como as cestas pesavam imenso, caminhávamos devagar e tínhamos de descansar de dez em dez metros. O senhor Afonso, apesar de levar um cesto cheio de heras às costas, ia sempre a andar e nunca fazia pausas.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Finalmente chegámos junto de uma borda, à beira dum caminho estreito e pousámos as cestas. Nessa borda, havia uma gruta que há muitos anos alguém ali escavara. Dentro da gruta, talhado no saibro, havia um banquinho. Assim, se de repente chovesse, toda a gente lá podia entrar para se abrigar.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Nós gostávamos de ir para dentro da gruta, quando começava a cair imenso granizo. Sentados no banco, ficávamos calados e cheios de medo. As nossas mães não gostavam que fôssemos, mas aquele espectáculo era fascinante e nós gostávamos de ter medo durante algum tempo.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Na véspera de Natal, o interior da gruta que havia ao ciminho da minha aldeia sofria uma grande transformação. E em toda a Pedra de Hera nada havia mais bonito do que aquela gruta escavada na terra saibrenta.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O cesto com a hera e as cestinhas com o musgo ficaram no caminho, junto da gruta. E nós corremos para casa do senhor Afonso. Mas ele não nos acompanhou, vinha muito devagar, pouco se importando com as nossas pressas.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Venha depressa! — gritava a Ana.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E ele respondia:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Já tenho idade para não ter pressas.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Quando o senhor Afonso chegou, nós já tínhamos comido todas as nozes que havia nos bolsos das minhas calças, e estávamos fartos de esperar.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O senhor Afonso abriu a porta da cozinha; nós entrámos depois dele e corremos para junto de uma grande caixa de madeira enegrecida que havia na sala pequenina, à beira da janela, que tinha um vidro estalado.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Ele levantou a tampa da caixa com muito cuidado, encostou-a à parede, e nós espreitámos lá para dentro. Dentro da caixa havia saquinhos de linho com centeio, milho e feijões. No fundo de tudo, estava outra caixa, muito mais pequena, também de madeira.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Com muito cuidado, o senhor Afonso apanhou essa pequena caixa e foi pousá-la sobre uma cadeira. Depois de ter fechado a caixa grande, pegou na mais pequena com muito cuidado e saiu de casa. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Nós seguimo-lo, muito devagarinho, fartos de saber que o senhor Afonso já não tinha idade para ter pressas. E íamos calados para que a caixa não fugisse das mãos do senhor Afonso.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Quando a caixa ficou junto das nossas cestinhas cheias de musgo e do cesto carregado de hera, o senhor Afonso disse:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Isto tem de ficar muito bem feito, ouviram? Agora quem manda sou eu. Combinado?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Combinado!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Ninguém se zanga. Combinado?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Combinado!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Só fazem o que eu disser. Combinado?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Combinado!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Vamos lá começar!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Combinado! — disse a Joana, pouco atenta. E toda a gente se riu.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">A primeira coisa a ir para dentro da gruta foi o musgo. Com muito jeito, alcatifámos o chão com as mantas fofas e verdes que fomos tirando das cestas. As heras foram crescendo em redor. E, de repente, o interior da gruta transformou-se numa serra verdinha, com arvoredo e cheia de pasto, a precisar de um rebanho de ovelhas e de alguns pastores.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O senhor Afonso levantou a tampa da caixa e nós ficámos calados a ver o que estava lá dentro. E o que estava lá dentro eram muitos embrulhinhos de jornal muito bem acondicionados.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Ai, mas aqueles jornais escondiam figuras que ganhavam vida e nos faziam sonhar tanto!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">A primeira figura que ficou sem o papel era um pastor que se fartava de rir. Tinha umas bochechas muito encarnadas, vestia uns calções que lhe davam até aos joelhos e trazia um saquinho pelo ombro e uma cabaça à roda da cintura. Era um pastor alegre e devia ser bem amigo das  suas  ovelhas.  Muito  atento, o  pastor  foi  para  o  cimo  do monte e começou a assobiar pelo seu cão. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O cão, todo preto e com manchas brancas por todo o corpo, pulou da caixa, desembaraçou-se dos jornais que o embrulhavam, e foi logo ter com ele. Aquele cão era, com toda a certeza, um grande amigo do pastor, sempre pronto a ajudá-lo a guardar as ovelhas e a fazer-lhe companhia naquela serra imensa e silenciosa, onde o tempo custava a passar. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Gordinhas, com o corpo coberto de lã branca muito encaracolada, as ovelhas também apareceram e espalharam-se por toda a verdura. Muitas estavam cheias de fome, porque não paravam de pastar. Duas estavam tão fartas que nem sequer olhavam para aquele belo pasto. De cabeça erguida, fartavam-se de balir. Se calhar, achavam que estava na hora de dar a mama aos filhotes. Mas eles andavam lá longe, nos sítios mais altos do monte, a dar pinotes, felizes com tanta liberdade.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Feita com espigas de trigo, saiu da caixa uma manjedoura. Era uma boa ideia. Se chovesse ou nevasse, aquela manjedoura serviria para lá pôr feno seco para o rebanho comer.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Outro pastor chegou. Aquele pastor, que era ainda rapazinho e tinha um chapéu roto na cabeça, foi pôr-se junto dos cordeiros. E fez muito bem. Aquela parte da serra não estava vigiada. Se aparecesse um lobo, os cordeiros, coitaditos, nem sequer teriam tempo de chamar pelo cão.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Depois apareceu uma vaca. Devia ter dentro dela um filhote, porque tinha uma grande barriga e quis deitar-se junto da manjedoura. Do outro lado veio encostar-se um burrinho. Logo depois apareceu S. José e foi encostar-se à manjedoura. Atrás de José, veio Maria.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O burrinho, a vaca, José e Maria estavam a olhar para a manjedoura. Bem se via que estavam bastante preocupados. O bafo muito quente saía das narinas da vaca e do burrinho e aquecia a palha da manjedoura.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Uma estrela prateada apareceu no cimo da gruta, bem perto de um galo, que não parava de cantar.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Finalmente, muito gorducho, sempre a rir, só com uma fralda de pano no corpo, o Menino Jesus foi posto na manjedoura.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Depois ficámos bastante tempo a olhar, calados.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O silêncio era tão grande naquela gruta que até parecia que ouvíamos o Menino Jesus a respirar tranquilamente.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O senhor Afonso deixou-nos carregar a caixinha e os jornais que vinham dentro dela. Quando entrámos na sala, fui eu que meti a caixinha dentro da caixa de madeira enegrecida, junto dos sacos de linho cheios de centeio, milho e feijões.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Estava a anoitecer quando eu entrei em casa. Fui encontrar a minha mãe a mudar a água às muitas postas de bacalhau que estavam a demolhar num balde de madeira. Antes de me sentar, fiz-lhe um recadinho: fui à fonte buscar um regador de água.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Andei bem depressa, entornei até alguma água. Mas tinha de ser assim. É que já estava a ficar muito escuro e eu tinha medo que alguma bruxa má ou até um lobisomem surgisse de repente na curva do caminho, que era estreito e serpenteado.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Já vi muitas coisas, umas boas outras más.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Já ouvi muitas verdades e muitas mentiras.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Já passei por grandes cidades e por lugares ainda mais pequeninos do que a minha Pedra de Hera.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Muitas vezes me alegrei e algumas vezes fiquei triste.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Já não têm conta as vezes que sonhei acordado. E muitos sonhos compartilhei com os meus amigos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Mas nada foi tão especial como aquele dia que calhou a vinte e quatro de Dezembro desse ano que agora relembro.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="color:#003366;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;">Quando acordei, já a minha mãe e a minha avó andavam muito atarefadas na cozinha. Na lareira, enormes labaredas aqueciam grandes panelas de ferro.</span><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"> Depois de almoçar o leite e as sopas de pão que a minha avó pôs dentro da malga  com  flores azuis, minha  mãe mandou-me tratar da cabra Lourença.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E eu fui. Pelo caminho reparei que todas as casas da Pedra de Hera tinham um chapéu de fumo a cobri-las.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">No nosso lameiro, que ficava junto da ribeira, comecei a cortar a erva com uma foicinha muito bem afiada.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Tinha já cortado um bom pedaço quando me assustei. No meio da erva encontrei um ninho de ratos pequeninos, ainda sem pêlo, muito rosadinhos. Estive quase para os matar com a ponta da foicinha. Depois pensei no Menino Jesus e nas prendas de Natal e deixei-os viver. O Menino Jesus devia ter ficado muito contente por ver que eu tinha um bom coraçao.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="color:#003366;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;">Com uma cordinha apertei a erva num belo molho e levei-o para a manjedoura da cabra. A Lourença ficou contente comigo.</span><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"> Ao regressar a casa, surpreendi-me com o cheiro diferente que envolvia toda a Pedra de Hera. Cheirava a açúcar queimado, a canela e a frituras.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Nessa noite, que demorava tanto a chegar, a nossa casa iria encher-se de gente. À volta da mesa comprida estariam os meus tios e os meus primos, a minha avó, a minha mãe e eu. Ao todo, éramos catorze.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Quando entrei na cozinha, minha avó enfeitava com canela grandes travessas de aletria. Minha mãe, com o rosto muito vermelho, transpirada, fritava as primeiras rabanadas. Em cima da mesa estava um monte de pencas repolhudas, e no chão um balde cheio com as maiores batatas criadas no nosso quintal.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Queres comer uma postinha de bacalhau assado? — perguntou minha mãe.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="color:#003366;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;">Não cheguei a dizer que sim, que era muito capaz de comer</span><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"> uma bela posta de bacalhau assadinha nas brasas muito vivas da lareira, muito bem regada com azeite aquecido, e temperada com um dente de alho partido em pedacinhos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E não cheguei a dizer que sim, porque ouvimos um barulho que não era habitual na Pedra de Hera.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">As galinhas ficaram alvoroçadas, os cães desataram a ladrar. E a minha mãe disse, quase a medo:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Será?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— É! — respondeu a minha avó.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Saí da cozinha a correr. Minha mãe acompanhou-me.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Quando cheguei ao largo da Pedra de Hera, vi a Ana, o Pedro, a Joana e o Ricardo, o velho táxi do senhor Joaquim a largar fumo e um homem alto e magro, de fato e gravata. Esse desconhecido ajudava o senhor Joaquim a retirar do velho táxi uma grande mala castanha. Três malas estavam amontoadas no chão.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Ao ver-me, o senhor Joaquim disse, de dedo apontado:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Ó Zé, olha quem está ali!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="color:#003366;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;">O homem alto e magro olhou para a minha mãe e depois para mim. Abriu os braços e começou a caminhar devagarinho. Eu estava bem colado à minha mãe e vi que ele tinha os olhos muito</span><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"> brilhantes e sorria.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Aqueles braços abertos vieram enlaçar-se na minha mãe. Estiveram imenso tempo abraçados. E um manto de silêncio envolveu o largo.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Depois o homem olhou para mim. E, de repente, pegou em mim, atirou-me ao ar, como se eu fosse uma pena de um pássaro e acabei por cair nos seus braços. Apertou-me contra o seu peito.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E eu apercebi-me que os nossos corações batiam com muita força.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Não dás um beijo ao teu pai? — perguntou.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E eu dei. A cara dele tinha uma barba que picava. Os beijos dele eram húmidos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="color:#003366;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;">Quando meu pai me pôs no chão, toda a gente da Pedra de Hera estava no largo. </span><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;">O último a chegar foi o senhor Afonso.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E eu fiquei muito admirado: era a primeira vez que eu via lágrimas nos seus olhos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Quando a escuridão tomou conta da Pedra de Hera, fui dizer ao senhor Afonso para vir consoar connosco, como era costume.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Nessa noite, a nossa sala ficou cheia de gente muito faladora à volta da mesa comprida. E era uma alegre confusão:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Dá cá as batatas!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Passa para aqui essa travessa de bacalhau!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Não entornes o azeite!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Quem é que tem a garrafa do vinagre?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Estas tronchas estão muito paladosas. Só a geada é que lhes dá este sabor! </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Quero aletria!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Dá-me daí um sonho!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Que belas rabanadas!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Quero outro bolinho de chila!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Olha o que fizeste à toalha! Que grande nódoa de vinho&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— É Natal, não faz mal&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— O que eu mais gosto é de formigos. Ah, este sabor do mel é tão bom! Quero mais um bocadinho.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Não quero mais nada. Estou satisfeito. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Ó Zé, bebe mais um cálice de vinho fino!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Está aqui muito calor!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Quando é que vem o Menino Jesus?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Não há-de demorar!&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Não dormes, menino!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Quem quer figos secos?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Vamos jogar o par e o pernão?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Atenção, o rapa vai rodar&#8230; Mãos abertas em cima da mesa!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Rapa, tira, põe e deixa!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Rapa os pinhões todos!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Tanta loiça para lavar!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Oxalá que para o ano toda a gente esteja aqui!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Tenho sono&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— A missa do Galo deve estar a começar.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Que horas são?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Breve é meia-noite! O tempo corre!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">— Lá fora está um frio de rachar. Agasalhem-se!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">De repente, um sono muito forte tomou conta de mim. Tinha sido um dia muito especial.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Fui ao meu quarto buscar um sapato e pu-lo na lareira. Sentei-me no colo de meu pai e&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">E não me lembro de mais nada! </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Acordei com o cócórócócó do Pintinhas. O Pintinhas era o nosso galo de crista tombada. Eu é que lhe tinha posto esse nome por causa das suas penas com muitas cores.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O Pintinhas acordou-me e eu deixei-me ficar estendido na cama, com os cobertores por cima da cabeça. Na Pedra de Hera só se ouvia o cantar dos galos e o latido dos cães mais medrosos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="color:#003366;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;">Era tão bom ficar a dormitar!</span><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Depois, lembrei-me que era dia de Natal. E a vontade de ficar no morninho gostoso da cama passou num instante. O Menino Jesus já tinha passado pela minha casa e eu ali deitado!&#8230; </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Nem sequer tive tempo de me vestir e calçar. Sempre a correr, em bicos de pés para não acordar a minha avó nem os meus pais, atravessei a sala e entrei na cozinha. Era gelado o chão da cozinha, mas a pedra da lareira ainda estava morna. A minha gata Tareca estava lá enroscada e não gostou nada que eu aparecesse.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Sentei-me num banco, pus os pés na pedra e ali fiquei a olhar, com o coração a bater com muita força. Pousado na lareira estava um grande embrulho. Que prenda estaria ali dentro? Eu nunca tinha visto um embrulho tão grande&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Devagarinho, muito, devagarinho, assim como quem come um chocolate delicioso em pequenas dentadas, comecei a tirar o laço. Oh! Era um laço tão bonito, tão dourado, que dava pena ter de o desfazer. Mas a vontade de ver o que estava ali dentro era tão grande!&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Agora que o laço estava enrolado em cima da mesa, era preciso retirar o papel. Era um papel vermelho, muito mais vermelho do que a crista do Pintinhas. Não, não podia estragar um papel tão bonito. Com ele até podia fazer moinhos de vento.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Com muito cuidado, fui retirando o papel.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">O que estaria dentro daquela caixa de cartão? O que seria? O que seria?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Agora que o papel estava dobrado em cima da mesa, era preciso tirar a tampa da caixa. O que estaria ali dentro?</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Tirei a tampa. Vi o que estava dentro da caixa e soltei um grito que espantou a Tareca.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Dentro da caixa estava um livro cheio de histórias, um livro de capa dura com muitas folhas cheias de linhas azuis sem uma única palavra, uma caneta de tinta permanente, um par de meias, uma gravata vermelha e um tambor.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Agora que as prendas estavam alinhadas em cima da mesa, era preciso admirá-las e decidir qual delas deveria usar pela primeira vez.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">De repente, senti que tinha os pés gelados. Peguei nas prendas e levei-as para a minha cama.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="color:#003366;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;">E ali fiquei muito quieto a saborear o espanto e a alegria.</span><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;">Por muitos anos que viva, nunca hei-de esquecer esse dia de Natal vivido nessa aldeia muito pequena, escondida por uma enorme mancha de altos pinheiros e carvalhos gigantescos. Pedra de Hera era o seu nome.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;color:maroon;line-height:140%;font-family:&amp;"><span style="color:#003366;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-indent:22.7pt;line-height:115%;text-align:justify;margin:6pt 0 5.5pt;"> </p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:11pt;line-height:115%;"><span style="color:#003366;">Vilarelho, Fevereiro de 1997</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:22.7pt;line-height:115%;text-align:justify;margin:6pt 0 5.5pt;"><span style="font-size:11pt;color:maroon;line-height:115%;"><span style="color:#003366;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:22.7pt;line-height:115%;text-align:justify;margin:6pt 0 5.5pt;"><span style="font-size:11pt;color:maroon;line-height:115%;"><span style="color:#003366;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:10pt;"><span style="color:#003366;">António Mota</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:right;margin:0;"><span style="color:#003366;"><em><span style="font-size:10pt;">Sonhos de Natal</span></em></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:10pt;"><span style="color:#003366;">V. N. Gaia, Edições Gailivro, 2003</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:10pt;"><span style="color:#003366;">Adaptação</span></span></p>
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		<title>Os três reis do Oriente</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Nov 2008 11:12:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pnatal</dc:creator>
				<category><![CDATA[Natal]]></category>
		<category><![CDATA[Reis Magos]]></category>

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		<description><![CDATA[Gaspar Naquele tempo, na cidade de Kalash, o príncipe Zukarta instaurou o culto do bezerro de oiro. A estátua poisava nas multidões submissas os seus olhos espantados, muito abertos, pintados de branco e de preto. No fundo das suas pupilas aflorava quase uma interrogação, como se a extensão do seu poder o surpreendesse. Era um [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=prepararonatal.wordpress.com&amp;blog=1641256&amp;post=13&amp;subd=prepararonatal&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><span style="color:#003300;">Gaspar</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Naquele tempo, na cidade de Kalash, o príncipe Zukarta instaurou o culto do bezerro de oiro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">A estátua poisava nas multidões submissas os seus olhos espantados, muito abertos, pintados de branco e de preto. No fundo das suas pupilas aflorava quase uma interrogação, como se a extensão do seu poder o surpreendesse. Era um jovem bezerro de pequenos cornos torcidos e pernas musculosas, de testa obtusa, curta e franzida. As suas quatro patas, firmemente poisadas na terra, davam uma grande impressão de firmeza e estabilidade que tranquilizava o coração dos seus fiéis. E em todo o seu corpo brilhava o oiro, oiro compacto, duro, pesado, faiscante.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Em frente do ídolo as mulheres curvadas sacudiam sobre o mármore claro dos degraus os sombrios cabelos quase azuis. Dos confins do deserto, dos longínquos oásis, das aldeias perdidas, chegavam homens que depunham em frente do altar a sua oferta: vinham oferecer oiro ao oiro. E os homens bons de Kalash, juízes e chefes guerreiros, desfilavam reverentes em frente do bezerro. Atrás deles vinham os comerciantes, os vendedores, os oleiros, os tecelões. Beijavam os degraus do altar e depunham no chão a sua oferta: traziam oiro ao oiro. Até os sacerdotes da Lua e os seus fiéis e acólitos se prostravam, de joelhos, com a cabeça tocando o solo, em frente do ídolo novo de Kalash.<span id="more-13"></span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Zukarta olhava todas estas coisas com grande alegria, pois o culto do oiro era o fundamento do seu poder.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Raros eram aqueles que não acorriam ao templo, cada vez mais raros. Os muito pobres, os muito envergonhados, os muito humilhados, não ousavam apresentar-se. Eles eram como uma raça à parte, pois a pobreza era olhada como o estigma que marcava aqueles que o Bezerro não amava. No fundo das suas almas tão humilhadas que mal ousavam pensar o seu próprio pensamento, os muito pobres, os muito envergonhados esperavam outro deus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Eles e Gaspar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Uma delegação de homens importantes veio ao palácio de Gaspar. E disseram:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Porque não te apresentas no templo do Bezerro? Por acaso te falta oiro para a oferta? Que tens tu de comum com a ralé das docas? Não estás por acaso vestido de púrpura e de linho como um rei? Porque desafias o poder de Zukarta? Serás um traidor? No culto do Bezerro está a prosperidade e a grandeza de Kalash. Estarás vendido aos nossos inimigos? </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Gaspar respondeu:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Não posso adorar o poder dos ídolos. O meu deus é outro e creio no seu advento, que a Terra e o Céu me anunciam.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Ouvindo esta resposta, os chefes das tribos e os homens bons de Kalash disseram:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Separamo-nos de ti porque te separaste de nós e renegaste os nossos caminhos. Não terás mais parte nas nossas assembleias. Nem serás mais ouvido nos nossos conselhos, nem partilharás dos nossos festejos e banquetes. E também não terás lugar na nossa força. Os soldados não protegerão a tua casa nem as tuas caravanas. E serás presa fácil dos bandidos. Não receberás a protecção das nossas leis, e os nossos juízes julgarão em sentença contra ti, e a tua razão será como um punhado de cinza. Como a gente da ralé, não terás nem protecção nem defesa enquanto não te curvares perante o altar do Bezerro para adorar os ídolos que nós adoramos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E Gaspar respondeu:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— O meu deus é em mim como uma fonte que não pára de correr e é em meu redor como o muro de uma fortaleza.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Então os notáveis de Kalash sacudiram a poeira dos seus sapatos e saíram do palácio.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Depois desse dia, muitas calamidades se abateram sobre Gaspar. Os bandidos assaltaram as suas caravanas e os ladrões saquearam os seus palmares. Mãos misteriosas apedrejavam de noite a sua casa e na água das suas cisternas apareciam frutos podres e aves mortas a boiar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E começou o tempo da solidão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Nos frescos pátios do palácio não penetraram mais os visitantes e a água correndo nos tanques deixou de acompanhar o leve rumor das conversas. Os parentes e os amigos desapareceram como que devorados pela penumbra e todas as coisas pareciam envolvidas em escândalo e terror.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Porém o tempo crescia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E Gaspar escutava o crescer do tempo. A solidão criava em seu redor um transparente espaço de limpidez onde os instantes avançavam um por um e o universo inteiro parecia atento. O silêncio era como a mesma palavra inumeravelmente repetida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E debruçado sobre o tempo, Gaspar pensava: «O que pode crescer dentro do tempo senão a justiça?»</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Ajoelhado no terraço, Gaspar olhava o céu da noite. Olhava a alta e vasta abóbada nocturna, escura e luminosa, que simultaneamente mostrava e escondia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Senhor, como estás longe e oculto e presente! Oiço apenas o ressoar do teu silêncio que avança para mini e a minha vida apenas toca a franja límpida da tua ausência. Fito em meu redor a solenidade das coisas como quem tenta decifrar uma escrita difícil. Mas és tu que me lês e me conheces. Faz que nada do meu ser se esconda. Chama à tua claridade a totalidade do meu ser, para que o meu pensamento se torne transparente e possa escutar a palavra que desde sempre me dizes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Primeiro pareceu a Gaspar que a estrela era uma palavra, uma palavra de repente dita na muda atenção do céu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Mas depois o seu olhar habituou-se ao novo brilho e ele viu que era uma estrela, uma nova estrela, semelhante às outras, mas um pouco mais próxima e mais clara e que, muito devagar, deslizava para o Ocidente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E foi para seguir essa estrela que Gaspar abandonou o seu palácio.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#003300;">Melchior</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">A placa de barro tinha passado de geração em geração, de idade em idade, de mão em mão. Nela estava escrito que ao mundo seria enviado um redentor e que uma estrela se ergueria no Oriente para guiar aqueles que buscavam o seu reino.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">A placa era um pequeno rectângulo de argila, enegrecido pelo tempo, de aspecto frágil, pobre e gasto. Era um prodígio que tivesse atravessado, sem se perder, tantos séculos de ruínas e opulências, saques, incêndios e guerras. Era um prodígio que tivesse podido atravessar, sem se perder, a ambição, a violência, a agitação e a indiferença dos homens.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Estava ali, no palácio, alinhada ao lado de milhares de placas que enumeravam vitórias, batalhas, massacres e riquezas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Os seus caracteres estavam semi-apagados pelo tempo e a sua escrita era tão antiga que se tornava difícil decifrá-la com exacto rigor. Muitas leituras eram possíveis.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Por isso o rei Melchior convocou três assembleias de sábios para que juntos averiguassem qual era a justa interpretação daquele texto antiquíssimo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Primeiro vieram os historiadores, aqueles que tinham aprendido toda a ciência das bibliotecas e que conheciam até ao menor detalhe a escrita, a linguagem, os usos, os costumes, os anais e os códigos dos tempos idos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">A assembleia reuniu-se durante um mês no palácio do rei. Era o meio do Verão e o calor poisava pesadamente sobre os terraços cegos de sol. Nos jardins as palmeiras roçavam umas nas outras, com um rumor metálico, as suas folhas afiadas e duras como serras.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Ao cair das tardes os sábios sentavam-se em círculo no pátio interior do palácio. Melchior presidia. Um fino murmúrio de água correndo nos tanques acompanhava os debates. Os escravos descalços circulavam em silêncio servindo vinho de tâmara temperado com neve das montanhas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">O círculo de homens sentados descrevia uma área vazia e no centro dessa área tinha sido colocada uma mesa de pedra sobre a qual estava poisada a placa de barro. Parecia extremamente pequena e insignificante, no meio de tanto espaço e opulência, parecia um detrito das eras antigas que ali tinha sido abandonado pelo tempo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Durante longos debates, durante trinta dias, os sábios estudaram e examinaram meticulosamente cada linha dos caracteres antiquíssimos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E ao trigésimo dia ergueu-se Negurat, arquivista-mor do templo da Lua, e disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Creio que a leitura que tu, ó rei, fizeste deste texto não é a verdadeira. Pois leste: «Ao mundo será enviado um redentor, e uma estrela subirá no Oriente para guiar aqueles que buscam o seu reino.» Mas verdadeiramente é outra a significação deste texto antigo: assim, os caracteres onde leste «redentor» significavam, na remota era em que foi gravada esta placa, não «redentor» mas sim «grande rei»; e os caracteres onde leste «será» e «subirá» não exprimem formas verbais do futuro mas sim formas verbais do passado; e o verbo buscar não está no presente mas sim no pretérito perfeito; e onde leste «para guiar» deverá ser lido, de acordo com os métodos de decifração dos textos antigos, «guiando». Portanto, ó rei, ao contrário daquilo que julgaste ler, este texto não se refere ao futuro mas sim ao passado, e não anuncia o advento de nenhum salvador, mas antes glorifica as obras de um grande personagem dos tempos idos. Assim a leitura correcta deste texto é, em minha opinião, a seguinte: «Ao mundo foi enviado um grande rei que como uma estrela dominou o Oriente guiando aqueles que buscaram o seu reino.»</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Quando Negurat acabou de falar, levantou-se Atmad, arquivista-mor do palácio, e disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Grande é a ciência de Negurat. Mas a interpretação da escrita antiga tem terríveis dificuldades. Não há dúvida que no texto apresentado devemos ler «grande rei» e não «redentor». No entanto, não concordo com aquilo que diz respeito às formas verbais: creio que o verbo ser e o verbo subir se encontram realmente no futuro. E também discordo da forma como foram lidas as palavras «guiar», «buscam» e «reino». E penso ainda que o verbo «subir» tem aqui o sentido de «dominar». De forma que, na minha opinião, a leitura correcta do texto é esta: «Ao mundo será enviado um grande rei que como uma estrela dominará o Oriente para engrandecer aqueles povos que aceitarem o seu poder.» Pois esta inscrição é de facto uma profecia, mas uma profecia que já foi cumprida. É evidente que o grande rei é o grande Alexandre que dominou todo o Oriente até ao reino de Pórus e que morreu, como sabeis, em Babilónia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E quando Atmad acabou de falar, levantou-se o velho sábio Akki, que disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Admirei as sapientes palavras que ouvi. Mas na verdade a leitura deste antiquíssimo texto levanta tantas dúvidas e são tantas as interpretações que podemos propor, que verdadeiramente, ó rei, nada podemos concluir. Então levantou-se Melchior e disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Ide em paz e continuai os vossos estudos. Eu continuarei a perguntar, a escutar e a esperar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E no mês seguinte reuniu-se no palácio real a assembleia dos letrados.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Melchior propôs-lhes as dúvidas e as interpretações dos historiadores e durante trinta dias os letrados estudaram o texto.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E no trigésimo dia, ao cair da tarde, estando todos sentados em círculo e estando no meio do círculo a mesa de pedra sobre a qual estava poisada a placa de barro, levantou-se Ken-Hur e disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— A poesia não se exprime directamente. Ora o texto que temos em nossa frente é um poema e por isso mesmo deve ser tomado como um metáfora que não se refere nem ao passado nem ao presente nem ao futuro do mundo em que vivemos, mas só ao mundo interior do poeta, que é o mundo da poesia sempre voltado para o devir e para a esperança. Este texto não fala de factos reais e apenas simboliza o espírito criador do homem. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Falou em seguida Amer, que disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Este texto é um poema e coloca-se por isso à margem do vivido. O poema não se refere àquilo que é, mas sim àquilo que não é. Pois a natureza é uma caixa cheia de coisas da qual o poeta extrai uma coisa que lá não está.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E levantou-se depois o irmão de Amer, que disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Num poema não devemos buscar sentido, pois o poema é ele próprio o seu próprio sentido. Assim o sentido de uma rosa é apenas essa própria rosa. Um poema é um justo acordo de palavras, um equilíbrio de sílabas, um peso denso, o esplendor da linguagem, um tecido compacto e sem falha que apenas fala de si próprio e, como um círculo, define o seu próprio espaço e nele nenhuma coisa mais pode habitar. O poema não significa, o poema cria.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E tendo terminado o debate, levantou-se Melchior, que disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Eu vos agradeço as vossas palavras. Por mim continuarei a buscar, a escutar e a esperar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Então retiraram-se os letrados e o rei ficou sozinho no pátio, em frente da placa de barro, escutando o correr da água e o cair da noite.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E no mês seguinte reuniram-se no palácio os homens sapientes. Melchior propôs-lhes as dúvidas dos historiadores e dos letrados e a nova assembleia deliberou durante trinta dias.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E no trigésimo dia levantou-se Kish, que disse: </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— As multidões ignorantes curvam-se em frente dos ídolos, mas aqueles que meditam conhecem a solidão do universo. Que redentor poderemos esperar? O universo é como uma máquina bem regulada que sem princípio nem fim gira lentamente através das idades e dos ciclos. Nas constelações e nas luas, nos triângulos e nos círculos, encontrarás as leis dos números que se cumprem e se cumprirão inexoravelmente. Que redenção poderemos esperar?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E falou depois Maro, que disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Os deuses que existiram extinguiram-se há muito, e aquilo que adoramos é apenas a cinza do divino. Qual é, na idade em que vivemos, o homem que viu um anjo? Onde está aquele que ouviu, com os seus ouvidos de carne, a palavra de Ísis ou de Assur? Vivemos um tempo de viuvez e todas as coisas se tornaram cegas e surdas. Num mundo de injustiça e de desordem tentamos sobreviver como animais perseguidos. Quebrou-se o laço que nos ligava ao universo atento. Podemos bater com os punhos na terra, podemos implorar com a cabeça tocando a poeira. Ninguém responderá. Cegou o olhar que nos via e o ouvido que nos escutava secou. Tudo nos é alheio como um lugar que não nos reconhece. E o brilho dos astros impassíveis cintila sobre a nossa tristeza. Quem pode esperar que uma estrela se mova?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Falou em seguida Tot, e disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Nascemos para morrer. Toda a nossa esperança se resolverá em cinza. Onde está o homem que não morreu? O próprio Alexandre, filho de Ámon, que estabeleceu o seu Império desde o Egipto até ao reino de Pórus, morreu miseravelmente nos palácios da Babilónia. E no entanto a sua radiosa juventude parecia mostrar a natureza de um Deus, e era tão grande a sua perfeição que ninguém podia julgá-la mortal. Quem poderia acreditar que morresse o seu corpo equilibrado e liso como uma coluna, a sua inteligência aguda e limpa como o sol, o seu olhar direito que simplificava todas as coisas, o seu rosto brilhante como um estandarte e a sua alegria invencível? Alexandre, príncipe da Macedónia, filho de Ámon, maravilhamento dos povos, conduziu o destino do homem a seus últimos limites, de tal forma que nele todos julgaram que a natureza humana tinha conquistado o divino. Mas Alexandre morreu no trigésimo terceiro ano da sua vida, no cimo da sua força e da sua glória, em pleno esplendor da sua juventude. E assim os deuses nos disseram que o homem não pode ultrapassar o seu destino, e que o seu destino é um destino para a morte. Por isso, ó rei, que poderemos esperar? Nada pode modificar a condição do homem e nesta condição não há lugar para a esperança.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Quando os pensadores se retiraram, Melchior levantou-se do trono e avançou até à mesa de pedra. Entre as grandes colunas que rodeavam o pátio, a placa de argila parecia extraordinariamente frágil e pequena. Mas o rei tocou com a sua fronte as letras quase apagadas.<br />
Nessa noite, depois da Lua ter desaparecido atrás das montanhas, Melchior subiu ao terraço e viu que havia no céu, a Oriente, uma nova estrela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">A cidade dormia, escura e silenciosa, enrolada em ruelas e confusas escadas. Na grande avenida dos templos já ninguém caminhava. Só de longe em longe se ouvia, vindo das muralhas, o grito de ronda dos soldados.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E sobre o mundo do sono, sobre a sombra intrincada dos sonhos onde os homens se perdiam tacteando, como num labirinto espesso, húmido e movediço, a estrela acendia, jovem, trémula e deslumbrada, a sua alegria.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E Melchior deixou o seu palácio nessa noite.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#003300;">Baltasar</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">O rei Baltasar amava a frescura dos jardins e sorria ao ver na água clara dos tanques o reflexo da sua cara cor de ébano.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E amava a alegria, o rumor e a abundância dos banquetes, e muitas vezes as suas festas duravam até ao romper do dia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Porém, certa madrugada, depois de se terem retirado todos os convivas, o rei ficou na grande sala, sozinho com um jovem escravo que tocava flauta.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E pareceu-lhe que a melodia desenhava no ar o contorno de um espaço vazio.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Então o seu coração ficou pesado de tristeza, e Baltasar pensou: «Será possível que um dia eu me retire da vida como um conviva saciado que se retira de um banquete? Ou terei sempre a mesma sede, a mesma fome, o mesmo desejo dos momentos e dos dias?»</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E tendo pensado isto atravessou a porta da sala e saiu para o jardim.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Cá fora, na luz indecisa da antemanhã, o jardim parecia suspenso. A bruma confundia o desenho claro dos tanques e diluía no ar o contorno das ramagens.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Baltasar caminhou longamente entre flores e palmeiras até romper o Sol. E quando já era dia chegou a um pequeno terraço que ficava no extremo do jardim. Debruçou-se no parapeito e viu, do outro lado da rua estreita, um homem jovem, encostado a uma parede, que o olhava.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Baltasar ficou imóvel, como se o rosto do outro lhe tivesse batido na cara. Ou como se o rosto do outro de repente fosse o seu rosto. Ou como se pela primeira vez na sua vida tivesse visto a cara de outro homem.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">O que naquele rosto mais o surpreendia era a nudez, a evidência nua. Era como se naquele rosto o cerimonial da vida tivesse retirado a sua máscara e a realidade mostrasse, sem nenhum véu, o abandono, a dor consciente, a condição do homem.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Era um rosto de homem jovem e magro onde os ossos desenhavam, sem nenhum equívoco, o ideograma da fome. A tristeza subia da mais profunda morada da memória e aflorava inteira à tona das pupilas. A paciência, como uma leve cinza, poisava na testa, sobre os beiços, sobre os ombros. E havia nessa paciência uma doçura tal que Baltasar sentiu de súbito uma vontade aguda de chorar e de se prostrar com a sua própria cara encostada à terra. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E perguntou:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Tu, quem és?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Tenho fome — murmurou o homem.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Entra — disse Baltasar. — Vou mandar que te sirvam os melhores frutos, as melhores carnes, os melhores vinhos. Vou mandar que lavem os teus pés com água perfumada numa bacia de ouro. Vou mandar que te vistam de púrpura. Vou mandar aos meus músicos que toquem para te aprazer as mais belas melodias. Vou mandar vir para ti a tocadora de cítara. Eu próprio colocarei debaixo dos teus pés o tapete mais precioso, e ficarei sentado ao teu lado para desfazer a tua solidão, e escutarei as tuas palavras para que possas tomar parte na alegria e para que as fontes e os jardins do palácio apaguem a tua tristeza.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Porém o homem, ouvindo estas palavras, assustou-se. No rosto negro, debruçado na luz branca do terraço, reconheceu com terror o rosto do rei. E pensou:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Ai de mim! Para que me chama o rei? Vim espreitar o seu palácio e isto sem dúvida é um crime. É melhor que eu fuja antes que os guardas cheguem.»</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Pois aquele homem, como todos os muito pobres, sabia que o mundo era governado por leis que o perseguiam e condenavam, e por isso temia a cada instante ser acusado e preso por uma razão desconhecida. Caminhava num país que não era o seu e onde tudo era para ele insegurança e temor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E por isso fugiu, sumiu-se ofegante entre as curvas da ruela estreita, sem ver o gesto de Baltasar que o chamava.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E no palácio o rei disse aos seus guardas:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Ide e procurai nas ruas um homem jovem magro, vestido de farrapos e que tem os olhos cheios de tristeza e de paciência.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Porém, ao cair da tarde, os guardas voltaram e disseram:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Encontrámos tantos homens esfarrapados, tristes e pacientes que não soubemos distinguir aquele que tu procuras.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Por isso, na manhã seguinte, o rei Baltasar, tendo despido os seus vestidos de púrpura, envolveu-se num manto de estamenha e saiu sozinho do palácio para procurar o homem.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Desceu pelas ruelas estreitas da encosta, e, longe das grandes avenidas triunfais onde a brisa faz sussurrar as folhas duras das palmeiras, percorreu longamente os bairros pobres da beira do rio. Os carregadores do cais ergueram para ele a face sombria, e o homem que vendia os sapatos de corda poisou no olhar do rei o seu olhar cansado. Viu homens dobrados sob os fardos, viu os que puxavam carroças como bois, lentos e pacientes como bois, viu os que usavam grilhetas nos pés, viu os que deslizavam rente às paredes, silenciosos como sombras, viu os que gritavam, os que choravam, os que gemiam. Viu os que estavam sós, imóveis, encostados aos muros, atónitos, interrogando, para além da voz rouca das ruas, o silêncio opaco, fitando em sua frente a estrada recta do silêncio. Viu os que pescavam pequenos peixes nas águas sujas do rio. Viu os que tinham a cara cor de trapo e as mãos feitas de cinza, cinza leve que voava com o vento. Viu a sombra verde, o reino da paciência, o país da desolação sem margens, o império dos humilhados, o lado esquerdo da vida, a Pátria deserdada, o fundo do mar da cidade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E no dia seguinte o rei reuniu os seus ministros e disse-lhes:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Mandai distribuir os meus tesoiros e mandai distribuir as reservas acumuladas nos armazéns e nos celeiros. E reparti tudo entre os esfomeados e os pedintes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Tendo ouvido isto, os ministros retiraram-se para deliberar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E voltaram passados três dias, e responderam:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Os teus tesoiros não chegam para resgatar os escravos, e as reservas dos teus armazéns não chegam para saciar os esfomeados. Nem o teu poder chega para alterar a ordem da cidade. Se cumpríssemos aquilo que mandaste, os fundamentos que nos sustentam e os muros que nos protegem ruiriam. O teu desejo é contrário ao bem do reino. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E o rei lhes respondeu:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Procuro outra lei e procuro outro reino.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Então os ministros retiraram-se, murmurando entre si:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Vemos que ele nos trai.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Na manhã seguinte, dirigiu-se Baltasar ao templo de todos os deuses.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E leu estas palavras gravadas na pedra do primeiro altar:<br />
<em>Eu sou o deus dos poderosos e àqueles que me imploram concedo a força e o domínio, eles nunca serão vencidos e serão temidos como deuses.</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Seguiu o rei para o segundo altar e leu:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><span style="color:#003300;">Eu sou a deusa da terra fértil e àqueles que me veneram concedo o vigor, a abundância e a fecundidade e eles serão belos e felizes como deuses.</span></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Encaminhou-se o rei para o terceiro altar e leu:<br />
</span></p>
<div style="text-align:justify;"><em> </em></div>
<div style="text-align:justify;"><em> </em></div>
<p style="text-align:justify;"><em><span style="color:#003300;">Eu sou o deus da sabedoria e àqueles que me veneram concedo o espírito ágil e subtil, a inteligência clara e a ciência dos números. Eles dominarão os ofícios e as artes, eles se orgulharão como deuses das obras que criaram.</span></em><span style="color:#003300;">E tendo passado pelos três altares, Baltasar interrogou os sacerdotes:</span></p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Dizei-me onde está o altar do deus que protege os humilhados e os oprimidos, para que eu o implore e adore.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Ao cabo de um longo silêncio, os sacerdotes responderam:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Desse deus nada sabemos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Naquela noite, o rei Baltasar, depois de a Lua ter desaparecido atrás das montanhas, subiu ao cimo dos seus terraços e disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Senhor, eu vi. Vi a carne do sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não te vir?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente. O seu movimento era quase imperceptível. Parecia estar muito perto da terra. Deslizava em silêncio, sem que nem uma folha se agitasse. Vinha desde sempre. Mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E Baltasar reconheceu-a logo, porque ela não podia ser de outra maneira.</span></p>
<p style="text-align:right;"><span style="color:#003300;">Sophia de Mello Andresen<br />
<em>Contos exemplares</em><br />
Porto, Figueirinhas, 1997</span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/prepararonatal.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/prepararonatal.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/prepararonatal.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/prepararonatal.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/prepararonatal.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/prepararonatal.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/prepararonatal.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/prepararonatal.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/prepararonatal.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/prepararonatal.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/prepararonatal.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/prepararonatal.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/prepararonatal.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/prepararonatal.wordpress.com/13/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=prepararonatal.wordpress.com&amp;blog=1641256&amp;post=13&amp;subd=prepararonatal&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A Noite de Natal &#8211; Sophia de Mello Andresen</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Nov 2008 10:43:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pnatal</dc:creator>
				<category><![CDATA[Natal]]></category>
		<category><![CDATA[Noite de Natal]]></category>
		<category><![CDATA[Reis Magos]]></category>

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		<description><![CDATA[  O amigo Era uma vez uma casa pintada de amarelo com um jardim à volta. No jardim havia tílias, bétulas, um cedro muito antigo, uma cerejeira e dois plátanos. Era debaixo do cedro que Joana brincava. Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao grande tronco escuro. Depois imaginava os [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=prepararonatal.wordpress.com&amp;blog=1641256&amp;post=4&amp;subd=prepararonatal&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align:center;"><span style="color:#003300;"> </span></h3>
<h3 style="text-align:center;"><strong><span style="color:#003300;">O amigo</span></strong></h3>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Era uma vez uma casa pintada de amarelo com um jardim à volta.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">No jardim havia tílias, bétulas, um cedro muito antigo, uma cerejeira e dois plátanos. Era debaixo do cedro que Joana brincava. Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao grande tronco escuro. Depois imaginava os anõezinhos que, se existissem, poderiam morar naquelas casas. E fazia uma casa maior e mais complicada para o rei dos anões.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Joana não tinha irmãos e brincava sozinha. Mas de vez em quando vinham brincar os dois primos ou outros meninos. E, às vezes, ela ia a uma festa. Mas esses meninos a casa de quem ela ia e que vinham a sua casa não eram realmente amigos: eram visitas. Faziam troça das suas casas de musgo e maçavam-se imenso no seu jardim.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros meninos. Só sabia estar sozinha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Mas um dia encontrou um amigo. Foi numa manhã de Outubro.<span id="more-4"></span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Joana estava encarrapitada no muro. E passou pela rua um garoto. Estava todo vestido de remendos e os seus olhos brilhavam como duas estrelas. Caminhava devagar pela beira do passeio sorrindo às folhas do Outono. O coração de Joana deu um pulo na garganta.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Ah! — disse ela. E pensou:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Parece um amigo. E exactamente igual a um amigo.» E do alto do muro chamou-o:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Bom dia!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">O garoto voltou a cabeça, sorriu e respondeu:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Bom dia!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Ficaram os dois um momento calados.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Depois Joana perguntou:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Como é que te chamas?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Manuel — respondeu o garoto.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Eu chamo-me Joana.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E de novo entre os dois, leve e aéreo, passou um silêncio. Ouviu-se tocar ao longe o sino de uma quinta. Até que o garoto disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— O teu jardim é muito bonito.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— É, vem ver.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Joana desceu do muro e foi abrir o portão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E foram os dois pelo jardim fora. O rapazinho olhava uma por uma cada coisa. Joana mostrou-lhe o tanque e os peixes vermelhos. Mostrou-lhe o pomar, as laranjeiras e a horta. E chamou os cães para ele os conhecer. E mostrou-lhe a casa da lenha onde dormia um gato. E mostrou-lhe todas as árvores e as relvas e as flores.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— É lindo, é lindo — dizia o rapazinho gravemente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Aqui — disse Joana — é o cedro. É aqui que eu brinco.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E sentaram-se sob a sombra redonda do cedro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">A luz da manhã rodeava o jardim: tudo estava cheio de paz e de frescura. Às vezes do alto de uma tília caía uma folha amarela que dava voltas no ar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Joana foi buscar pedras, paus e musgo e começaram os dois a construir a casa do rei dos anões.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Brincaram assim durante muito tempo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Até que ao longe apitou uma fábrica.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Meio-dia — disse o garoto — tenho de me ir embora.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Onde é que tu moras?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Além nos pinhais.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— É lá a tua casa?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— É, mas não é bem uma casa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Então?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— O meu pai está no céu. Por isso somos muito pobres. A minha mãe trabalha todo o dia mas não temos dinheiro para ter uma casa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Mas à noite onde é que dormes?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— O dono dos pinhais tem uma cabana onde de noite dormem uma vaca e um burro. E por esmola dá-me licença de dormir ali também.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— E onde é que brincas?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Brinco em toda a parte. Dantes morávamos no centro da cidade e eu brincava no passeio e nas valetas. Brincava com latas vazias, com jornais velhos, com trapos e com pedras. Agora brinco no pinhal e na estrada. Brinco com as ervas, com os animais e com as flores. Pode-se brincar em toda a parte.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Mas eu não posso sair deste jardim. Volta amanhã para brincar comigo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E daí em diante todas as manhãs o rapazinho passava pela rua. Joana esperava-o empoleirada em cima do muro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Abria-lhe a porta e iam os dois sentar-se sob a sombra redonda do cedro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E foi assim que Joana encontrou um amigo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Era um amigo maravilhoso. As flores voltavam as suas corolas quando ele passava, a luz era mais brilhante em seu redor e os pássaros vinham comer na palma das suas mãos as migalhas de pão que Joana ia buscar à cozinha.</span></p>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#003300;">* *</span></p>
<p style="text-align:center;"><strong><span style="color:#003300;">A festa</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Passaram muitos dias, passaram muitas semanas até que chegou o Natal.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E no dia de Natal Joana pôs o seu vestido de veludo azul, os seus sapatos de verniz preto e muito bem penteada às sete e meia saiu do quarto e desceu a escada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Quando chegou ao andar de baixo ouviu vozes na sala grande; eram as pessoas crescidas que estavam lá dentro. Mas Joana sabia que tinham fechado a porta para ela não entrar. Por isso foi à casa de jantar ver se já lá estavam os copos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Os copos passavam a sua vida fechados dentro de um grande armário de madeira escura que estava no meio do corredor. Esse armário tinha duas portas que nunca se abriam completamente e uma grande chave. Lá dentro havia sombras e brilhos. Era como o interior de uma caverna cheia de maravilhas, e segredos. Estavam lá fechadas muitas coisas, coisas que não eram precisas para a vida de todos os dias, coisas brilhantes e um pouco encantadas: loiças, frascos, caixas, cristais e pássaros de vidro. Até havia um prato com três maçãs de cera e uma menina de prata que era uma campainha. E também um grande ovo de Páscoa feito de loiça encarnada com flores doiradas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Joana nunca tinha visto bem até ao fundo do armário. Não tinha licença de o abrir. Só conseguia que a criada às vezes a deixasse espreitar entre as duas portas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Nos dias de festa, do fundo das sombras do interior do armário saíam os copos. Saíam claros, transparentes e brilhantes tilintando no tabuleiro. E para Joana aquele barulho de cristal a tilintar era a música das festas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Joana deu uma volta à roda da mesa. Os copos já lá estavam, tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma fonte de montanha do que do fundo de um armário. As velas estavam acesas e a sua luz atravessava o cristal. Em cima da mesa havia coisas maravilhosas e extraordinárias: bolas de vidro, pinhas douradas e aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas. Era uma festa. Era o Natal.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas Noites de Natal as estrelas são diferentes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Abriu a porta e desceu a escada da varanda. Estava muito frio, mas o próprio frio brilhava. As folhas das tílias, das bétulas e das cerejeiras tinham caído. Os ramos nus desenhavam-se no ar como rendas pretas. Só o cedro tinha os seus ramos cobertos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E muito alto, por cima das árvores, era a escuridão enorme e redonda do céu. E nessa escuridão as estrelas cintilavam, mais claras do que tudo. Cá em baixo era uma festa e por isso havia muitas coisas brilhantes: velas acesas, bolas de vidro, copos de cristal. Mas no céu havia uma festa maior, com milhões e milhões de estrelas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Joana ficou algum tempo com a cabeça levantada. Não pensava em nada. Olhava a imensa felicidade da noite no alto céu escuro e luminoso, sem nenhuma sombra.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Depois voltou para casa e fechou a porta. — Ainda falta muito tempo para o jantar? — perguntou ela a uma criada que ia a atravessar o corredor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Ainda falta um bocadinho, menina — disse a criada. Então Joana foi à cozinha ver a cozinheira</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Gertrudes, que era uma pessoa extraordinária porque mexia nas coisas quentes sem se queimar e nas facas mais aguçadas sem se cortar, e mandava em tudo, e sabia tudo. Joana achava-a a pessoa mais importante que ela conhecia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">A Gertrudes tinha aberto o forno e estava debruçada sobre os dois perus do Natal. Virava-os e regava-os com molho. A pele dos perus, muito esticada sobre o peito recheado, já estava toda doirada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Gertrudes, ouve uma coisa — disse Joana.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os perus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— O que é? — perguntou ela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Que presentes é que achas que eu vou ter?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Não sei — disse Gertrudes — não posso adivinhar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e por isso continuou a fazer perguntas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Qual amigo? — disse a cozinheira.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— O Manuel.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— O Manuel não. Não vai ter presentes nenhuns.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Não vai ter presentes nenhuns!?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Não — disse a Gertrudes abanando a cabeça.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Mas porquê, Gertrudes?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Porque é pobre. Os pobres não têm presentes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Isso não pode ser, Gertrudes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Mas é assim mesmo — disse a Gertrudes fechando a tampa do forno.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Joana ficou parada no meio da cozinha. Tinha compreendido que era «assim mesmo».</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo. Todas as manhãs a ouvia discutir com o homem do talho, com a peixeira e com a mulher da fruta. E ninguém a podia enganar. Porque ela era cozinheira há trinta anos. E há trinta anos que ela se levantava às sete da manhã e trabalhava até às onze da noite. E sabia tudo o que se passava na vizinhança e tudo o que se passava dentro das casas de toda a gente. E sabia todas as notícias, e todas as histórias das pessoas. E conhecia todas as receitas de cozinha, sabia fazer todos os bolos e conhecia todas as espécies de carnes, de peixes, de frutas e de legumes. Ela nunca se enganava. Conhecia bem o mundo, as coisas e os homens.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Mas o que a Gertrudes tinha dito era esquisito como uma mentira. Joana ficou calada a cismar no meio da cozinha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">De repente abriu-se a porta e apareceu uma criada que disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Já chegaram os primos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Então Joana foi ter com os primos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram todos para a mesa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Tinha começado a festa do Natal.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. Em cima da mesa tudo brilhava: as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas doiradas. E as pessoas riam e diziam umas às outras: «Bom Natal». Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa. E vendo tudo isto Joana pensava:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Com certeza que a Gertrudes se enganou. O Natal é uma festa para toda a gente. Amanhã o Manuel vai-me contar tudo. Com certeza que ele também tem presentes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão alegre como antes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">O jantar do Natal era igual ao de todos os anos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananases.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a porta e entraram na sala.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">As luzes eléctricas estavam apagadas. Só ardiam as velas do pinheiro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore do Natal. Mas era sempre como se fosse a primeira vez. Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra. Era o Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Joana olhava, olhava, olhava.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Às vezes lembrava-se do seu amigo Manuel.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Um dos primos puxou-a por um braço.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Joana, ali estão os teus presentes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Joana abriu um por um os embrulhos e as caixas: a boneca, a bola, os livros cheios de desenhos a cores, a caixa de tintas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">À sua volta todos riam e conversavam.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Todos mostravam uns aos outros os presentes que tinham tido, falando ao mesmo tempo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E Joana pensava:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Talvez o Manuel tenha tido um automóvel.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E a festa do Natal continuava.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e nos sofás a conversar e as crianças sentaram-se no chão a brincar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Até que alguém disse:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— São onze horas e meia. São quase horas da missa. E são horas de as crianças se irem deitar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Então as pessoas começaram a sair.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">O pai e a mãe de Joana também saíram.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Boa noite, minha querida. Bom Natal — disseram eles.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E a porta fechou-se.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Daí a um instante saíram as criadas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">A casa ficou muito silenciosa. Tinham ido todos para a Missa do Galo, menos a velha Gertrudes, que estava na cozinha a arrumar as panelas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E Joana foi à cozinha. Era a altura boa para falar com a Gertrudes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Bom Natal, Gertrudes — disse Joana.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Bom Natal — respondeu a Gertrudes. Joana calou-se um momento. Depois perguntou:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Gertrudes, aquilo que disseste antes do jantar é verdade?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— O que é que eu disse?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Disseste que o Manuel não ia ter presentes de Natal porque os pobres não têm presentes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Está claro que é verdade. Eu não digo fantasias: não teve presentes, nem árvore do Natal, nem peru recheado, nem rabanadas. Os pobres são os pobres. Têm a pobreza.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Mas então o Natal dele como foi?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Foi como nos outros dias.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— E como é nos outros dias?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Uma sopa e um bocado de pão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Gertrudes, isso é verdade?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Boa noite — disse Joana. E saiu da cozinha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Subiu a escada e foi para o seu quarto. Os seus presentes de Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os um por um. E pensava:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas e livros. São tal e qual os presentes que eu queria. Deram-me tudo o que queria. Mas ao Manuel ninguém deu nada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E sentada na beira da cama, ao lado dos presentes, Joana pôs-se a imaginar o frio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se a imaginar a Noite de Natal naquela casa que não era bem uma casa, mas um curral de animais.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Que frio lá deve estar!», pensava ela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Que escuro lá deve estar!», pensava ela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Que triste lá deve estar!», pensava.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E começou a imaginar o curral gelado e sem nenhuma luz onde Manuel dormia em cima das palhas, aquecido só pelo bafo de uma vaca e de um burro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Amanhã vou-lhe dar os meus presentes — disse ela. Depois suspirou e pensou:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que é a Noite de Natal.»</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Foi à janela, abriu as portadas e através dos vidros espreitou a rua. Ninguém passava. O Manuel estava a dormir. Só viria na manhã seguinte. Ao longe via-se uma grande sombra escura: era o pinhal.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Então ouviu, vindas da Torre da Igreja, fortes e claras, as doze pancadas da meia-noite.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Hoje», pensou Joana, «tenho de ir hoje. Tenho de ir lá agora, esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite de Natal.»</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Foi ao armário tirou um casaco e vestiu-o. Depois pegou na bola, na caixa de tintas e nos livros. Apetecia-lhe levar também a boneca, mas ele era um rapaz e com certeza não gostava de bonecas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Pé ante pé Joana desceu a escada. Os degraus estalaram um por um. Mas na cozinha a Gertrudes fazia muito barulho a arrumar as panelas e não a ouviu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Na sala de jantar havia uma porta que dava para o jardim. Joana abriu-a e saiu, deixando-a ficar só fechada no trinco.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Depois atravessou o jardim. O Alex e a Ghiribita ladraram.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Sou eu, sou eu — disse Joana.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E os cães, ouvindo a sua voz, calaram-se.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Então Joana abriu a porta do jardim e saiu.</span></p>
<p style="text-align:center;"><strong><span style="color:#003300;">A estrela</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Quando se viu sozinha no meio da rua teve vontade de voltar para trás. As árvores pareciam enormes e os seus ramos sem folhas enchiam o céu de desenhos iguais a pássaros fantásticos. E a rua parecia viva. Estava tudo deserto. Àquela hora não passava ninguém. Estava toda a gente na Missa do Galo. As casas, dentro dos seus jardins, tinham as portas e as janelas fechadas. Não se viam pessoas, só se viam coisas. Mas Joana tinha a impressão de que as coisas a olhavam e a ouviam como pessoas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Tenho medo», pensou ela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Mas resolveu caminhar para a frente sem olhar para nada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Quando chegou ao fim da rua virou à direita e meteu a um atalho entre dois muros. E no fim do atalho encontrou os campos, planos e desertos. Ali, sem muros nem árvores nem casas, a noite via-se melhor. Uma noite altíssima e redonda e toda brilhante.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">O silêncio era tão forte que parecia cantar. Muito ao longe via-se a massa escura dos pinhais.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Será possível que eu chegue até lá?», pensou Joana.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Mas continuou a caminhar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Os seus pés enterravam-se nas ervas geladas. Ali no descampado soprava um curto vento de neve que lhe cortava a cara como uma faca.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Tenho frio», pensou Joana.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Mas continuou a caminhar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">À medida que se ia aproximando dele, o pinhal ia-se tornando maior. Até que ficou enorme.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Joana parou um instante no meio dos campos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Para que lado ficará a cabana?», pensou ela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E olhava em todas as direcções à procura de um rasto.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Mas à sua direita não havia rasto, à sua esquerda não havia rasto e à sua frente não havia rasto.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Como é que hei-de encontrar o caminho?», perguntava ela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E levantou a cabeça.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Então viu que no céu, lentamente, uma estrela cami¬nhava.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Esta estrela parece um amigo», pensou ela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E começou a seguir a estrela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Até que penetrou no pinhal. Então num instante as sombras fizeram uma roda à sua volta. Eram enormes, verdes, roxas, pretas e azuis, e dançavam com grandes gestos. E a brisa passava entre as agulhas dos pinheiros, que pareciam murmurar frases incompreensíveis. E vendo-se assim rodeada de vozes e de sombras Joana teve medo e quis fugir. Mas viu que no céu, muito alto, para além de todas as sombras, a estrela continuava a caminhar. E seguiu a estrela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Já no meio do pinhal pareceu-lhe ouvir passos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Será um lobo?», pensou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Parou a escutar. O barulho dos passos aproximava-se. Até que viu surgir entre os pinheiros um vulto muito alto que vinha caminhando ao seu encontro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">«Será um ladrão?», pensou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Mas o vulto parou na sua frente e ela viu que era um rei. Tinha na cabeça uma coroa de oiro e dos seus ombros caía um longo manto azul todo bordado de diamantes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Boa noite — disse Joana.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Boa noite — disse o rei. — Como te chamas?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Eu, Joana — disse ela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Eu chamo-me Melchior — disse o rei. E perguntou:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Onde vais sozinha a esta hora da noite?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Vou com a estrela — disse ela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Também eu — disse o rei —, também eu vou com a estrela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E juntos seguiram através do pinhal.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E de novo Joana ouviu passos. E um vulto surgiu entre as sombras da noite.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Tinha na cabeça uma coroa de brilhantes e dos seus ombros caía um grande manto vermelho coberto de muitas esmeraldas e safiras.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Boa noite — disse ela. — Chamo-me Joana e vou com a estrela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Também eu — disse o rei — também eu vou com a estrela e o meu nome é Gaspar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E seguiram juntos através dos pinhais. E mais uma vez Joana ouviu um barulho de passos e um terceiro vulto surgiu entre as sombras azuis e os pinheiros escuros.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Tinha na cabeça um turbante branco e dos seus ombros caía um longo manto verde bordado de pérolas. A sua cara era preta.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Boa noite — disse ela. — O meu nome é Joana. E vamos com a estrela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Também eu — disse o rei — caminho com a estrela e o meu nome é Baltasar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E juntos seguiram os quatro através da noite.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">No chão, os galhos secos estalavam sob os passos, a brisa murmurava entre as árvores e os grandes mantos bordados dos três reis do Oriente brilhavam entre as sombras verdes, roxas e azuis.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Já quase no fundo dos pinhais viram ao longe uma claridade. E sobre essa claridade a estrela parou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E continuaram a caminhar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana viu um casebre sem porta. Mas não viu escuridão, nem sombra, nem tristeza. Pois o casebre estava cheio de claridade, porque o brilho dos anjos o iluminava.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E Joana viu o seu amigo Manuel. Estava deitado nas palhas entre a vaca e o burro e dormia sorrindo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Em sua roda, ajoelhados no ar, estavam os anjos. O seu corpo não tinha nenhum peso e era feito de luz sem nenhuma sombra.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">E com as mãos postas os anjos rezavam ajoelhados no ar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Era assim, à luz dos anjos, o Natal de Manuel.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Ah — disse Joana — aqui é como no presépio!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">— Sim — disse o rei Baltasar — aqui é como no presépio.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#003300;">Então Joana ajoelhou-se e poisou no chão os seus presentes.</span></p>
<p style="text-align:right;"><span style="color:#003300;">Sophia de Mello Breyner Andresen<br />
<em>A Noite de Natal</em><br />
Porto, Figueirinhas, 1989<br />
Adaptação</span></p>
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